Sociedade

Tragédia de Moncorvo não é caso inédito

O caso de ‘suicídio mútuo’, ou de homicídio seguido de suicídio, tragédia protagonizada em Torre de Moncorvo pelo ex-presidente da autarquia local e a sua antiga mulher, está longe de ser um acontecimento inédito em Portugal, embora raro.

Tragédia de Moncorvo não é caso inédito

Tudo indica que Aires Ferreira, até há pouco mais de meio ano presidente da Câmara Municipal de Torre de Moncorvo, tenha combinado e cumprido um “pacto de morte”, ou “pacto de suicídio”, com a antiga mulher, Alice Brito, supostamente por ambos sofrerem doenças cancerígenas e incuráveis diagnosticadas há algum tempo ou por dificuldades financeiras, outra hipótese entretanto surgida. Atingiu-a com um tiro na nuca e a seguir suicidou-se, com a mesma arma, em casa de Alice, na Rua do Castelo, em Torre de Moncorvo.

As mortes estão a ser investigadas pela Polícia Judiciária, mas as cartas que foram deixadas por ambos, o ex-autarca e a ex-mulher com a qual se teria reconciliado, apontam para um caso de ‘mútuo consentimento’, executado pelos próprios, Aires Ferreira de 59 anos, e Alice Brito, de 55 anos.

Quando a decisão é de ambos…

O caso tem a particularidade de as mortes terem sido decididas por ambos, segundo tudo parece crer.
Há exactamente oito meses, mas em Loures, uma situação em tudo idêntica ocorreu com um casal de idosos. O marido, de 61 anos, bancário reformado, tinha um cancro nos intestinos e a esposa, de 59 anos, que por ironia do destino era funcionária do Instituto Português de Oncologia, enfrentava uma profunda depressão: terão decidido morrer e foram encontrados na cama, abraçados. Ambos queixavam-se aos vizinhos, mais palavra, menos palavra, que "já não vale a pena viver". Entregaram o cão a vizinhos, dizendo que iriam partir por uns tempos, três semanas antes de terem sido descobertos em Santo António dos Cavaleiros (Loures), no seu apartamento, situado no quarto andar de um edifício de 14 andares, na Praceta de António Nobre.

Um outro caso semelhante ocorreu há seis anos, na cidade do Porto, em que a doença, mas só de um dos cônjuges, a esposa, terá determinado a que o casal tivesse colocado termo à vida, em 12 de Junho 2008. O marido deu um tiro na cabeça da mulher, que estava bastante doente, suicidando-se de imediato. O casal residia num condomínio fechado na Foz do Douro e tinha propriedades em Felgueiras. Uma semana antes, o casal tinha vendido o automóvel que era habitualmente conduzido pela esposa.

Para encontrar um caso de ‘mútuo consentimento’ de suicídio, mas devido a outras razões que não de doença, teremos de recuar até à década de 1980, na Região do Norte. Um casal de actores, devido a problemas financeiros, imolou-se pelo fogo numa tenda de campismo, na Praia do Cabedelo, em Vila Nova de Gaia, junto da margem esquerda perto de onde o Rio Douro desagua no Oceano Atlântico.

… ou só de um

O caso mais recente conhecido em Portugal, em que a decisão é só de um dos elementos do casal, geralmente do marido, verificou-se há pouco mais de dois anos, em Lisboa, quando um casal de octogenários foi encontrado já sem vida. O marido, de 85 anos, asfixiou a esposa com um fio de nylon e depois suicidou-se por enforcamento. A mulher sofria doença de Alzheimer e a vida do casal, segundo as três cartas escritas pelo homicida e suicida, seria “insuportável”, devido ao agravamento do estado de saúde da esposa, de 89 anos.

Neste caso a morte foi decidida apenas pelo marido, porque estava desesperado e sabia que a mulher já não teria sequer capacidade para discernir a situação em que se encontrava, quando a matou, a 21 de Fevereiro de 2011, no Bairro de Caselas, no Restelo. O octogenário deixou três cartas: ao genro, à neta e ao marido da neta, onde explicava que o motivo daqueles actos (o homicídio e o suicídio) se deviam a não poder cuidar da mulher.

Todos estes casos não são, ao contrário da eutanásia (do grego, boa morte), mortes suaves e lentas. São sempre violentas e rápidas, mas para evitarem uma previsível agonia derivada de doenças ou de outros problemas. Na Grécia antiga, Sócrates admitia a eutanásia sempre que doença dolorosa permanente impedisse uma vida digna e Platão concordava com a eutanásia, na ‘República’. Thomas Moore também admitiu a eutanásia, na ‘Utopia’. Albert Camus, já num sentido mais lato, escreveu que “só há um problema filosófico verdadeiramente sério: é o suicídio”.

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