Opiniao

O papel ainda tem futuro e o digital é a oportunidade

Nesta semana, Paulo Portas entrou desportivamente na loja retro da irmã, A Vida Portuguesa, ao Chiado – justamente na moda pela venda de produtos que o foram no passado, como os brinquedos à antiga feitos de lata, as colheres de pau que a ASAE tanto censurou, o sabão Clarim que era mais fino do que o macaco com que as lavadeiras esfregavam a roupa nos tanques ou na beira-rio antes de a pôr a corar, ou a pasta medicinal Couto que se anunciava andando «na boca de toda a gente», numa fórmula que tinha tanto de literalmente pouco higiénico como de publicitária eficácia.
Irónica ou propositadamente, foi este o palco que Portas escolheu para um reencontro público com Miguel Esteves Cardoso, onde recordou os tempos em que fundaram o defunto jornal Independente, nos idos 80 do século passado, e profetizou igual sorte a todos os outros que ainda resistem em papel, em face do avanço incontrolável do digital.
Talvez seja pessimismo, acrescentou Portas.

Olhe que não... É mas é mais um erro, como os outros de que agora se lembra de ter cometido nos tempos em que dirigia o jornal.

O Independente de PP e MEC não morreu por causa do digital. Paulo Portas – ao contrário de quem sempre se manteve fiel ao jornalismo mesmo quando teve de abdicar do seu exercício para abraçar outras missões ou desafios – sempre foi um político, incluindo quando vestiu o fato de jornalista. Porque sempre teve um projecto político e o Independente (independentemente dos seus muitos e excelentes cronistas e jornalistas, como MEC ou Graça Rosendo, dando apenas um bom exemplo de cada) nunca deixou de ser um poderoso instrumento de objectivos essencialmente políticos.
Foi por isso que o Independente desapareceu: começou a desaparecer quando Portas assumiu a sua actividade política e desapareceu de vez quando perdeu a sua utilidade… política.

A esmagadora maioria dos jornais em Portugal resistem porque, ao contrário do Independente, não têm por base um projecto político (e mesmo aqueles que o tiveram na sua fundação, souberam reconverter-se em tempo), mas sim editorial, ou seja, de matriz essencialmente informativa.
Acontece, porém, que a massificação e a democratização da internet e, consequentemente, da informação, significa, de facto, uma ameaça mortal para os meios de comunicação social convencionais que não souberem adaptar-se às novas realidades e cederem na banalização da sua informação. Mas não é só para os jornais em papel, como profetizam os muitos que partilham a visão pessimista de Portas. Para todos: imprensa, rádio e televisão, independentemente da plataforma.

Não é preciso, porém, ser optimista, antes realista e pragmático, para perceber que o papel ainda tem e terá o seu papel, desde que enquadrado numa estratégia multiplataforma e assente numa estrutura devidamente dimensionada e focada para o digital.

Senão vejamos: em todo o mundo, os sites de informação referenciais e líderes estão associados a marcas feitas no papel – jornais e revistas (e não a marcas associadas a televisão e muito menos a rádio). Como não é por acaso que a Newsweek rapidamente morreu quando abandonou a versão impressa e aposta agora no regresso ao papel para tentar renascer com credibilidade no digital.

Isso mesmo o perceberam, há muito, os grandes operadores (motores de busca ou portais) da web: por isso cresceram à escala planetária à custa dos conteúdos suportados pelas estruturas demasiado onerosas de distintíssimos editores, inebriados com a exposição que a internet proporcionava aos meios; por isso, num segundo momento, acederam pagar peanuts a troco de um verdadeiro maná de conteúdos sob a capa de parcerias que muito pouco acrescentavam aos editores ainda crentes na bondade dos galifões da internet; por isso, acabaram estes a comprar papel (v. Amazon/Washington Post) por valores muito inferiores aos que o mercado apontava até há muito pouco tempo mas ainda assim salvadores para editores com a guilhotina da dívida bancária pronta a cortar-lhes o pescoço.

A massificação e democratização da informação retirou-lhe valor. A informação passou a ser democraticamente gratuita.

Não tem preço. Mas a verdade é que tem custos.

Inevitavelmente, as empresas de comunicação social, a começar pelos meios de imprensa, que viram os budgets publicitários reduzir drasticamente, foram forçadas a restruturações radicais e cortes de pessoal. De forma cega e generalizada, porque financeiramente mais imediatamente eficaz, dispensaram os mais velhos, com mais experiência e, obviamente, com salários mais elevados, e apostaram em jovens mais dinâmicos e muito mais baratos (quando não a custo zero, que ele há muita gente a sair das faculdades e candidata a estágios curriculares não remunerados).

Gente com canudo mas sem tarimba, com muito mais acesso a informação e cultura geral mas que na sua esmagadora maioria raramente ou nunca comprou um jornal ou um livro e muito menos o leu de fio a pavio.

A internet é um mundo.

O segredo da sobrevivência dos jornais está na sua capacidade para navegar nesse mundo e tirar dele o potencial absolutamente extraordinário que lhes proporciona.
Ceder ou vender em saldo conteúdos integrais aos grandes motores de busca e portais é hipotecar o futuro, entregando-lhes a carne e ficando com os ossos.

É obrigatório apostar no dimensionamento das estruturas empresariais, na harmonização intergeracional do saber feito da experiência, da memória, da cultura dos mais velhos com a dinâmica, a inovação, as novas vivências e as novas tendências e os novos saberes dos mais jovens.
A alma do negócio são os conteúdos que essa estrutura será capaz de gerar. As plataformas são meios. As redes sociais a verdadeira mina a explorar. O papel será residual, mas faz e ainda vai fazer toda a diferença.

Os jornais multiplataforma têm de saber dar tudo, mas não tudo em toda as plataformas.
Os jornais em papel têm de se desfocar da espuma dos dias, da informação banal, da cultura petit-larroussiana que é mato na internet. 

Essencialmente, as chamadas notícias frescas (breaking news) não deverão ser ‘guardadas’ para o papel mas sim alimentar as plataformas digitais do jornal numa lógica concorrencial com a das antigas agências (porque a informação, hoje, propaga-se à velocidade de um clic e tudo passa a estar em todo o lado em poucos segundos ou minutos, no máximo em horas, e no jornal em papel pouco ou nada serão rentabilizadas) – ganha a marca no digital e reforça o peso da marca no papel.

Neste, há que valorizar sobretudo a qualidade da informação, tratada com profundidade, reflexão, análise, explicação, opinião e, principalmente, diferença – essencial para se desencadearem os fenómenos virais nas redes sociais.

O jornal em papel será cada vez menos para as grandes massas e para grandes audiências, mas perdurará como o melhor isco para ir à pesca nas plataformas digitais, como marca referencial de informação, de conteúdos com credibilidade e sentido crítico – e aí, assim, conquistar as grandes audiências, as grandes massas e as grandes receitas publicitárias. Porque essa informação – qualificada, formatada – vai ter, essa sim, cada vez mais valor.

Na verdade, e graças ao digital, os jornais têm hoje um potencial de crescimento e de competitividade que lhes permite, com muito menos custo e muito menos meios, concorrer verdadeiramente com as rádios em áudio e com as televisões em imagem. No dia, cada vez mais próximo, em que as smart-tvs se generalizarem e as populações descobrirem as virtudes dos meios multiplataforma que já existem (v. o novo site do SOL), as estruturas e meios caríssimos que envolvem tais canais, com redacções próprias, é que têm mais e mais imediatas razões para temerem pelo seu futuro.

Ao contrário do que profetiza Paulo Portas, é menos provável que os jornais em papel desapareçam nos próximos cem anos do que o sabão Clarim e a pasta medicinal Couto existirem no séc. XXI. E, porém, ainda se vendem. 
O avanço incontrolável do digital pode, afinal, significar a salvação dos jornais. E do papel. Que, havendo pasta, vai continuar a fazer falar ou calar a boca de muita gente.

Mário Ramires, CEO da Newshold