Opiniao

Palito, o herói do povo

Há um mês,  em Estremoz, um homem entrou no escritório da advogada da mulher – com a qual estava em processo de divórcio – e matou-a violentamente com pancadas na cabeça.

O escritório da advogada, Natália de Sousa, situava-se bem no coração de Estremoz, na Praça da República, quase por cima de um pequeno supermercado de que sou cliente.

Não conhecia a advogada, mas conheço a mulher do criminoso, que tem (ou tinha) uma banca de venda de fruta e legumes na praça. É uma mulher ainda jovem, loura, com a língua afiada. Nunca está calada e daquela boca espera-se ouvir tudo. As filhas e o marido ajudavam-na no negócio, e em Estremoz corre que o motivo do divórcio foi a continuada infidelidade conjugal por parte dela, que aliás não a esconderia. «Ela chamava-lhe corno à frente de toda a gente», diz-me uma senhora que os conhecia bem.

Poucas semanas depois, na Baixa de Lisboa, um homem entrava no emprego da mulher, que tinha um consultório de dentista na Rua Augusta, e matava-a com várias facadas. Na noite anterior a mulher saíra de casa e manifestara a intenção de se separar.

É raro o dia em que o Correio da Manhã não noticia um caso destes: mulheres mortas pelos maridos, ex-maridos ou companheiros por quererem terminar a relação.

Os homens podem maltratá-las, enxovalhá-las, bater-lhes, mas não aceitam que elas os deixem ou, pior ainda, que os troquem por outros. Não é que gostem delas. O problema tem que ver com eles: sentem-se feridos no seu orgulho de machos. Matam as mulheres que ousaram pôr em causa a sua autoridade e a sua virilidade, abandonando-os.

Estes dois casos tiveram um grande impacto mediático. Mas a história que verdadeiramente apaixonou o país foi a de Manuel Baltazar, o ‘Palito’.

Depois de 34 dias em fuga, o homem foi preso e levado à presença do juiz – sendo inesperadamente aplaudido por populares quando entrava no tribunal. Os portugueses indignaram-se: um criminoso aplaudido? As feministas escandalizaram-se: o povo bate palmas a um monstro que feriu a ex-mulher e matou a mãe e a tia desta (além de balear a filha)? 
Há aqui uma grande confusão. Não acredito que o povo tenha batido palmas ao agressor daquelas mulheres. As pessoas, no campo, por mais incultas que sejam, têm um certo sentido de justiça – além de uma cultura cristã – e não aplaudem criminosos.

O que aquela gente aplaudiu foi um homem que desafiou o Estado e fintou a Polícia durante mais de um mês.

No tempo da guerra do Vietname, o meu pai falava-me com grande entusiasmo e admiração dos guerrilheiros vietcongs que, com armas rudimentares artesanais, fizeram frente a um exército equipadíssimo como o americano, acabando por derrotá-lo. Enquanto os soldados yankees, com equipamento e armamento ultramoderno, não conseguiam fazer dobrar o inimigo, este infligia constantes golpes com armadilhas primitivas, como buracos disfarçados no chão onde os americanos caíam às dezenas, morrendo atravessados por canas de pontas aguçadas dispostas na vertical no fundo da cova.

Ora, a ‘epopeia’ do ‘Palito’ lembrou-me os vietcongs. Durante um mês iludiu um destacamento da GNR equipadíssimo com capacetes, fardas especiais, todas negras, e pistolas-metralhadoras. E que até incluía elementos a cavalo! Tudo isto para apanharem um homem de fraca figura, pequeno e enfezado.

É fácil perceber que a população daquela aldeia perdida atrás do Sol-posto, que raramente vê a GNR por ali, encarou aqueles homens que pareciam vindos de Marte como uns intrusos. Eram corpos estranhos na pacata vida da aldeia. E o ‘Palito’ era um homem da terra, assassino mas filho da terra – que durante 34 dias conseguira fintar aqueles homens bem fardados e equipados até aos dentes. 

E reconheçamos que foi obra o homem andar fugido durante tanto tempo. Nós, nas nossas casas, se não tivermos escova de dentes ou pijama lavado, já nos sentimos desconfortáveis. Nas noites mais frias temos de ligar os aquecimentos das casas, porque as paredes e o tecto não chegam para nos proteger. E mudamos de roupa todos os dias. Ora, um homem andar um mês com a mesma roupa, secá-la no corpo quando se molha, esteja calor ou frio, dormir ao relento nas noites chuvosas e geladas, não ter que comer (podiam ajudá-lo, mas ele aproximar-se das casas era um risco), tem qualquer coisa de heróico.

No Portugal profundo sempre houve uma desconfiança em relação ao Estado. O Estado é o braço invisível que só se lembra das pessoas do interior para lhes cobrar impostos e exigir dinheiro. Foi isso, como se sabe, que esteve na origem da revolta da Maria da Fonte.
Mas não só no campo este sentimento anti-Estado e anti-Polícia existe. Até há uns anos (hoje é menos frequente) os automobilistas avisavam-se uns aos outros através de sinais luminosos sempre que havia uma patrulha na estrada. Era uma espécie de solidariedade entre os cidadãos contra a Polícia.
Foi isto, também, o que esteve na origem das palmas a ‘Palito’: uma certa solidariedade com um homem que iludiu um destacamento da Polícia que chegou ali com grande espalhafato – certamente exagerado – fazendo uma exibição de força.

Tranquilizem-se, pois, as feministas e outros cidadãos indignados: ninguém aplaudiu o homem que feriu a ex-mulher e matou duas familiares. Basta ver outros crimes passionais para perceber que o povo naturalmente põe-se ao lado da vítima e não do criminoso.
O ‘Palito’ foi aplaudido porque durante um mês conseguiu sozinho fintar os representantes de um Estado longínquo que só se lembra das gentes do interior para lhes impor normas que eles não compreendem ou para lhes cobrar impostos.
Neste sentido – e naquele momento – o ‘Palito’ era um herói do povo. 


jas@sol.pt