Cultura

Saramago volta ao grande ecrã

É precisamente na semana em que se assinalam os quatro anos decorridos sobre a morte de José Saramago que se estreia, nas salas de cinema portuguesas, O Homem Duplicado, uma adaptação ao grande ecrã do romance publicado pelo Nobel português em 2002. Realizado pelo canadiano Denis Villeneuve (Raptadas), num co-produção canadiana e espanhola, o filme é protagonizado por Jake Gyllenhaal. E, não sendo um blockbuster à semelhança de Ensaio Sobre a Cegueira, de Fernando Meirelles (a adaptação hollywoodesca da obra do escritor português), tem despertado atenções pelo circuito independente por onde tem passado, depois de se ter estreado no Festival Internacional de Cinema de Toronto no último Outono, onde foi considerado um dos favoritos, e no de San Sebastian (venceu dois Canadian Screen Awards, um para Melhor Realizador, outro para Melhor Actriz Secundária para Sarah Gadon, tendo sido nomeado também para Melhor Filme). 

Saramago volta ao grande ecrã

Versando sobre aquele que é, há muito, um dos temas eleitos da literatura e do cinema, o duplo, o filme centra-se num banal professor universitário que, um dia, se descobre a si próprio, ou ao seu sósia, num filme a que assiste. Abandona, então, a sua vida monótona para começar uma busca pelo seu outro eu, num thriller sobre a identidade, em que apenas um poderá subsistir: Jake Gyllenhaal ou... Jake Gyllenhaal que, claro, interpreta ambas as personagens, iguais no físico mas totalmente distintas na personalidade. Para tal, o actor, que protagonizou filmes como O Segredo de Brokeback Mountain, Máquina Zero ou Zodíaco, diz ter-se preparado a partir de opostos: “Comecei de uma forma muito simples, a partir de duas ideias, a de uma pessoa que entra numa sala e não aceita um não como resposta e a de outro tipo de pessoa que o aceita e até se desculpa envergonhada. Isto marca duas formas muito diferentes de enfrentar uma situação ou de relação com os outros”, contou ao diário espanhol 20 Minutos. 

Para aqueles que se dedicam a apontar num filme adaptado a partir de uma obra literária as diferenças relativamente à mesma, aqui a lista será extensa. É que apesar de ter partido para o filme com o romance de Saramago como base, Denis Villeneuve (nomeado para o Óscar de Melhor Filme Estrangeiro por Incendies - A Mulher que Canta, em 2010) é peremptório em afirmar que o fez livremente, sem se cingir às palavras, ideias ou tom do autor de Memorial do Convento, como disse numa entrevista ao El País: “Não faço ideia do que teria Saramago pensado sobre o filme. Quando fazes uma adaptação, e sei do que falo, deves respeitar a obra e ao mesmo tempo realizar o teu próprio filme. Neste caso, o filme baseia-se apenas nalgumas notas de humor e em parte da estrutura [do livro], afastámo-nos muito do romance original.

Queria que o espectador se colocasse as mesmas questões que eu quando li o livro”. Isto porque, quando começou o projecto de filmar esta história, Villeneuve escreveu num papel uma lista de perguntas a colocar a Saramago. Mas o escritor morreu antes que o pudesse fazer. E as perguntas ficaram sem resposta. “Espero que tenhamos sido respeitosos. É muito complicado adaptar um grande livro. Por sorte, O Homem Duplicado não é muito conhecido e isso deixou-me numa posição de certa liberdade”. 

Certo é que se o romance de Saramago é escrito com o tal humor referido pelo realizador, o filme de Villeneuve adopta um tom de medo, terror e mistério, transformando-se num thriller que, por vezes, e ao contrário do romance de Saramago, recorre ao fantástico, num pesadelo kafkiano que alterna entre sonho e realidade. Mas nem por isso o humor de Saramago foi esquecido como, de resto, lembra o actor, Jake Gyllenhaal. “O filme precisa que o público tenha um pouco de sentido de humor. É sério, às vezes dá até um pouco de medo, mas penso que também é muito divertido. Essa é uma parte muito importante do filme e, se a esqueces, acho que ficas apenas com metade da experiência”.  

rita.s.freire@sol.pt

 

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