Opiniao

As livrarias imprevisíveis

Há dias dirigi-me a uma livraria para adquirir um exemplar de História Insólita do Mundo. O título é enganador: não se trata de uma narrativa que conte a História universal sob um ponto de vista surpreendente, mas antes de uma colecção de factos anedóticos, incríveis e bizarros – e ainda assim verdadeiros –, despejados mais ou menos anarquicamente ao longo de 400 páginas. Recebi-o aqui na redacção do jornal e confesso que me pareceu demasiado sensacionalista, mas à medida que o fui lendo achei-o tão curioso que, quando um amigo fez anos, decidi comprar um exemplar para lhe oferecer.

As livrarias imprevisíveis

Acontece que, no dia do aniversário, um sábado, me dei conta de que tinha esquecido o embrulho no local de trabalho. E foi então que me dirigi a uma livraria de uma grande cadeia. Não o encontrando na secção, pedi ajuda ao empregado. «Não temos», disse-me. Já atrasado para o almoço, fui a uma segunda livraria. Também não estava disponível. Intrigado, perguntei porquê. «Esse livro já foi publicado há mais de um ano», esclareceu o rapaz, como se estivesse a referir-se a um acontecimento ocorrido há mais de um século. «Tirando casos excepcionais, só temos livros mais recentes». Cheguei a casa do meu amigo atrasado e de mãos a abanar. Expliquei-lhe vagamente a situação, mas não sei se fui convincente...

Fiquei a matutar no assunto e apercebi-me de que há um certo tipo de livrarias que estão cada vez mais desinteressantes, previsíveis e parecidas umas com as outras. Apostam tudo nos livros do momento, segundo uma hierarquia para mim misteriosa:este romance erótico tem direito a monopolizar a montra; aquele policial tem uma bancada só para ele; o novo livro de crónicas de fulano fica com uma pilha de um metro de altura; os contos de sicrano perfazem uma dúzia de volumes. Um enjoo.

Em compensação, tudo o que tenha mais de um ano é banido, afastado, para abrir espaço para o último best-seller, que por sua vez também não aguentará muito tempo. As leis do mercado – e a quantidade exagerada de livros que se publicam – assim o exigem.

É por estas e por outras que cada vez mais aprecio as visitas ao alfarrabista. Tudo começou quase por acaso. Inicialmente, faziam-me confusão os livros velhos, manuseados sabe-se lá por quem, com as páginas amarelecidas pelo tempo. Mas aos poucos comecei a encontrar livros que me interessavam, ou apenas curiosos, e de vez em quando até aparecia algum que me escapava há já bastante tempo. Sempre a preços que podia suportar. 
A páginas tantas, já estranhava os livros novos, como se lhes faltasse alguma coisa.

Quando surgiu na minha vida um outro tipo de responsabilidades – e de despesas – foi graças ao alfarrabista que pude continuar a adquirir livros. Percebi nessa altura que a insatisfação é intrínseca ao ser humano: quando há algo de que gostamos muito – sejam livros, caixas de fósforos ou garrafas de vinho – não nos satisfazemos facilmente. Queremos sempre mais, precisamos de novidades e acolhemo-las com a mesma alegria com que uma criança desembrulha um presente.

As visitas ao alfarrabista tornaram-se mais frequentes, permitindo-me ir satisfazendo o meu apetite, que por vezes é considerável. Ao contrário do que acontece nas livrarias comuns, nunca sei o que vou encontrar. Mas sei que, se desperdiçar uma oportunidade, da próxima vez o livro desejado poderá já não estar lá à minha espera. Será preciso dizer que isso torna tudo ainda mais excitante? 

jose.c.saraiva@sol.pt

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