Sociedade

Mais uma praga sem controlo

Metade do eucaliptal existente no país, cerca de 400 mil hectares, está afectado pela praga do gorgulho do eucalipto, avança fonte oficial da Direcção-geral de Alimentação e Veterinária (DGAV). 


Só nos eucaliptais da Altri Florestal, de um dos maiores grupos de produção de pasta de papel no país, estão afectados cerca de três mil e 500 hectares de plantações –  refere Ana Raquel Reis, directora de planeamento e desenvolvimento na área de sanidade florestal da empresa. Em causa está o insecto Gonipterus platensis – originário da Austrália, tal como a árvore de cujas folhas se alimenta. 

A luta contra a praga, para a qual se criou um plano nacional de acção, é difícil. "A capacidade de dispersão deste insecto é muito grande. Solta-se das árvores quando estas são abanadas e agarra-se firmemente aos locais onde pousa", explica a especialista, acrescentando: "Desfolhas moderadas reduzem a produtividade do povoamento em cerca de 20%. Desfolhas muito fortes e consecutivas, ao longo de anos, podem inviabilizar completamente a produção de madeira".

Os prejuízos costumam ser maiores em regiões de maior altitude, onde o gorgulho encontra condições ideais. Até agora, os produtores apenas podiam recorrer a insecticidas. Mas os agentes do sector, a Altri Florestal e o Raiz, do grupo Portucel (que não respondeu às questões do SOL), começaram recentemente a investigar um novo insecto: o Anaphes inexpectatus, uma espécie de vespa.

Uma vespa importada

Fonte ofical da DGAV explica que este é um "parasitoide" importado, parecido com outro utilizado na Europa nos anos 90 para o mesmo efeito – o Anaphes nitens. "Testes em laboratório revelaram um nicho semelhante", pelo que se antecipa o mesmo comportamento no campo, acrescenta a mesma fonte.

Mas a investigação da acção desta "pequena vespa que parasita os ovos da praga" está ainda no início, refere Ana Reis, da Altri. "Esta é uma via que ainda está a ser investigada", diz, explicando que a procura de parasitas mais resistentes a temperaturas baixas que o Anaphes nitens começou em 2009: "Encontrámos o tal Anaphes inexpectatus. Temos feito largadas desta pequena vespa e vamos acompanhando a sua instalação em campo, sob controlo e com acompanhamento oficial. Ainda é um trabalho muito precoce que, mesmo que funcione, ainda vai levar algum tempo a dar frutos".

"Ao parasitar os ovos de gorgulho do eucalipto, o insecto inviabiliza os embriões da praga e nascem mais parasitoides que irão parasitar mais ovos", explica ainda. Quanto aos efeitos para outras espécies nativas de Portugal, garante a especialista, o Anaphes inexpectatus é inofensivo: Este insecto "só parasita ovos de gorgulho pelo que é inócuo para a fauna nativa".

Domingos Patacho, especialista em florestas da Quercus, questiona contudo o facto de a DGAV não divulgar dados sobre a monitorização deste insecto exótico (o inexpectatus é originário da Austrália). "Os estudos sobre a espécie deveriam ser conhecidos", considera o especialista, questionando por que "o Instituto de Conservação da Natureza não esclarece quais os pareceres dados" e sublinhando que, até agora, esta vespa "ainda não tinha sido utilizada na Europa", desconhecendo-se por isso o seu impacto.

sonia.balasteiro@sol.pt