Opiniao

Jardim, Salgado e Sócrates

Na década de 90 do século passado, dois nomes eram sinónimo de poder. Ninguém os questionava e muitos vergavam-se à sua força. A ligação à política não era tão óbvia e só o nome de ex-governantes nos vários conselhos de administração fazia a ponte. 

Jardim, Salgado e Sócrates

Estava-se em período de euforia consumista e o betão e o alcatrão que cobriam o país não davam sinais de algum dia se vir a falar de crise. A Bolsa disparava e os novos ricos surgiam como cogumelos em tempo deles.

Jardim Gonçalves era o líder dos bancos privados, criou a Nova Rede que tinha o verde como cor, que mais tarde deu lugar ao Millennium, já com a cor rosa como marca. A sucessão no banco do homem da Opus Dei deu muito que falar, mas um aspecto sobressaiu: o ataque político ao banco quase o levou ao fundo. Nessa época, independentemente das conjecturas que se façam, outro banco começou a voar e Ricardo Salgado passou a ser o principal rosto da ligação do poder económico ao político. Já com a cor rosa no poder e o BCP, ali ao lado, mergulhado numa crise interna, o BES tornou-se o principal banco privado português.

Muitas empresas, clubes de futebol, grupos de comunicação social e demais actividades ficaram na dependência do banco liderado por Ricardo Salgado. Que tinha como um dos seus aliados nessa estrtégia de poder, ou vice-versa, José Sócrates, o homem que permitiu a criação de uma verdadeira economia paralela sem fiscalização pública. Basta olhar para os clubes de futebol e para as empresas de comunicação social para perceber isso. Isto sem esquecer as empresas estatais ou em vias de privatização que tinham homens de confiança do primeiro-ministro e dos seus aliados.

O que resta disto tudo? Dois bancos com dificuldades enormes, os dois ex-presidentes em descrédito e um ex-primeiro-ministro que tenta a todo o custo rescrever a história em horário nobre da televisão pública.

Milhares de desempregados, famílias destruídas e empresas falidas são o lado mais negro dessa época que José Sócrates liderou e na qual tentou mesmo controlar quase todos os meios de comunicação social. Mas será Sócrates o responsável de todos os nossos males? Claro que não, mas que teve um papel importante, teve. 

vitor.rainho@sol.pt

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