Com o corpo na terra

A terra que nos irá cobrir. O corpo e as suas profundezas. A terra, e o corpo, e as vibrações orgânicas que os unem, mas também os separam. Na nova criação de Olga Roriz, a terra é muito mais do que título e cenário.

A génese desta Terra remonta a 2012. Desde então que Olga Roriz decidiu que, para trabalhar sobre terra, teria de ter terra em palco. No entanto, e apesar de já ter tido terra em palco noutros espectáculos, depressa percebeu que o seu imaginário seria impossível de reproduzir, até pelas dificuldades que isto traria aos bailarinos em palco que, ainda assim, travam uma dura batalha com a terra que os rodeia e quase os engole.

A peça começa com um aparentemente animado piquenique. Mas os cinco convivas – companheiros de sempre das aventuras e devaneios criativos de Olga Roriz – depressa substituem o sentimento de comunhão com a natureza por um sentimento de repulsa. E a claridade vai-se transformando em escuridão. E a repulsa torna-se prazer para depois se revelar essencialmente cansaço. Até porque a sociedade ditou que nos esquecêssemos da proximidade à terra, aquela que nos faz mais reais.

2014 tem sido um bom ano para Olga Roriz. Afinal, ainda o ano vai sensivelmente a meio e a coreógrafa já apresenta a sua terceira obra. Depois de ter coreografado, em Fevereiro, Orfeu e Eurídice para a Companhia Nacional de Bailado e, em Março, Bits & Pieces para a Companhia Paulo Ribeiro, hoje e amanhã Olga Roriz leva ao palco do Grande Auditório do Centro Cultural de Belém, esta Terra, obra criada para a sua própria companhia.
Aqui, Olga Roriz não procurou contar uma história – como fez noutras obras recentes -, mas antes voltou aos fundamentos da dança, carregados da dureza e da agressividade que Olga Roriz vê como peças centrais.

raquel.carrilho@sol.pt