Sociedade

Divorciados reclamam um lugar na Igreja

O primeiro sinal de que a união de Manuel e Ana Campos merecia aprovação divina surgiu seis meses depois de casarem, quando Ana engravidou da filha Maria. Os dois vinham de casamentos anteriores, sem filhos, e casaram com a “plena convicção” de que isso não seria possível. Quatro anos depois de nascer Maria, veio Inês e quando Ana já tinha 46 anos nasceu Afonso. O casal não pôde casar pela Igreja pois à luz da doutrina católica o seu primeiro casamento permanece indissolúvel e uma segunda união não pode ser validada. “Mas este milagre foi encarado como uma enorme benção de Deus”, confessa Manuel, emocionado.


Além de não poderem receber o matrimónio, os divorciados recasados, como Manuel e Ana, estão impedidos de aceder à eucaristia - ou seja, não podem comungar a hóstia na missa. “Jesus diz na Bíblia que quem se separa comete adultério”, explica José Alfredo Patrício, especialista em Direito Canónico. E “quem não está em estado de graça não deve comungar”, acrescenta, referindo-se aos que voltam a constituir uma união amorosa estável.

Debate aberto pelo Papa

A situação dos recasados e o acesso à comunhão é o tema mais polémico que será discutido no Sínodo da Família, convocado pelo Papa e cuja primeira sessão será em Outubro. Apesar de muito católicos reclamarem há anos alterações para corrigir o que dizem ser uma injustiça para milhares de fiéis, é a primeira vez que o Papa lança o debate de modo tão aberto.

“O Papa sente que é uma situação dolorosa para muitos e quer que a questão seja analisada”, diz o sacerdote dando o exemplo dos divorciados que não tiveram responsabilidades na separação. José Alfredo Patrício cita o vaticanista Andrea Tornielli que diz que “muitos vivem um cisma silencioso, pois não negam os ensinamentos da Igreja mas também não vivem como Jesus pede”.

Ana e Manuel vivem estas limitações de forma diferente, mas não deixam de ter uma vida cristã activa: vão à missa ao domingo, dão uma educação católica aos filhos - que andam em colégios religiosos - e fazem uma caminhada espiritual conjugal e familiar.

Ana reage com mágoa ao que considera uma “tremenda injustiça”, e diz que, “se Jesus perdoou quem o matou, não devia dar uma pena tão pesada por uma separação da qual não tive culpas”. Já o marido Manuel encara a mesma realidade com os olhos da fé e o pragmatismo dos juristas. “Sou um homem ligado às leis e quando casei pela primeira vez era para a vida. Não tendo sido possível, resta-me aceitar as regras. Claro que me custa, mas não estou à espera que a Igreja venha mudar assim”.

Igreja deve acolher melhor

Recentemente entraram para um grupo de reflexão e partilha, com casais que vivem a mesma situação irregular perante a Igreja. São as Equipas de Santa Isabel, criadas pelo Cónego Carlos Paes, do Patriarcado, à semelhança das Equipas de Nossa Senhora, movimento a que pertencem milhares de casais, cá e em todo o mundo.

Manuel e Ana são o casal mais recente deste grupo de seis, criado em 2001 e acompanhado pelo Padre Robson Cruz, da paróquia do Alto do Lumiar. Reúnem-se todos os meses para meditar a palavra de Deus, debater um tema e partilhar experiências de vida.

“Todos querem fazer este caminho de aproximação a Cristo, mesmo que não possam comungar. Temos tendência para dizer só o que não podem fazer - e o que não se pode é importante -, mas tem de se pensar no que se pode fazer”, diz o sacerdote. “A primeira missão da Igreja é acolher quem vive em segunda união. E isso nem sempre acontece”, lamenta.

Nesta equipa todos procuram “aprofundar a fé”, garante o orientador espiritual do grupo. Mas não há sentimentos iguais: há quem prefira sentar-se no último banco da igreja, quem viva alguma revolta, mas também quem não se sinta menos cristão por não poder comungar.

Quase todos têm uma história para contar. Maria da Cruz recorda o padre que nunca mais apareceu no seu quarto do hospital quando lhe disse que era recasada. Manuel ficou sentido por lhe ter sido recusado o crisma, mesmo após o curso de preparação, Ana lembra o pároco que a mandou comungar à paróquia do lado. Marília também tem um desabafo a fazer: é mulher de um dos obstetras mais activos na defesa da vida e lamenta que as instituições católicas tenham deixado de o convidar para falar em público quando se separou.

“Estas pessoas não estão excomungadas nem castigadas mas têm um caminho muito exigente. Não significa que estejam fora da comunhão da Igreja e de um processo de reconciliação”, explica o cónego Carlos Paes, mentor das Equipas de Santa Isabel, que começaram em 1989 e ainda se resumem a poucos núcleos. Mas nem sempre a Igreja tem esta prática, admite. “A Igreja deve fazer caminho com todos e a sua última resposta não pode ser aplicar os cânones e dizer apenas não”, defende, sublinhando que tem divulgado a sua iniciativa por várias dioceses mas que continua a haver poucos padres a pegar nesta pastoral específica.

Polémica entre cardeais

O que dirá o Papa em relação a esta questão, no final do Sínodo, em 2015, poucos arriscam adivinhar. Mas o debate preparatório deste encontro mundial de bispos mostra que as opiniões estão extremadas.

O tema foi lançado pelo cardeal Kasper que, a convite do Papa, falou aos cardeais em Fevereiro defendendo a readmissão à comunhão destes católicos após um período de penitência e confissão. Outros cardeais classificaram esta posição quase como uma heresia, reafirmando que os que vivem num estado de vida contrário à indissolubilidade do matrimónio não podem comungar. Para José Alfredo Patrício, especialista em Direito Canónico, Francisco “arriscou bastante ao convidar Kasper para falar pois criou muita expectativa (dentro e fora da Igreja) de que isto se vá alterar”. “E não acredito que a doutrina vá mudar”, conclui.

rita.carvalho@sol.pt

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