Internacional

I Guerra Mundial: O início de um conflito que termina 30 anos depois

A I Guerra Mundial, desencadeada em 1914 e que inaugura o século mais violento da história da humanidade, constitui a fase inicial de um único e contínuo conflito que apenas culminará em 1945, entretanto interrompido por um prolongado cessar-fogo. 

Para diversos historiadores e estudiosos, existe assim uma "linha direta" entre os dois grandes confrontos militares do século XX, que designam por "Segunda Guerra dos Trinta Anos" numa referência ao conflito político-religioso que opôs diversas potências europeias na primeira metade do século XVII. 

Nesta perspectiva, o período entre 1914 e 1945 apenas culminará com a rendição japonesa em 15 de Agosto de 1945, nove dias após o lançamento da primeira bomba atómica em Hiroshima e o início da era nuclear. 

A I Guerra Mundial envolveu todas as grandes potências europeias e aliados -- à excepção da Espanha, Holanda, os três países escandinavos e Suíça --, tropas vindas de longe combateram fora das suas regiões (canadianos, australianos, neozelandeses), indianos são enviados para a Europa e Médio Oriente, africanos integram os exércitos nas colónias, e os Estados Unidos intervêm pela primeira vez em solo europeu. 

Os dois lados também tentam a vitória pela tecnologia: ocorrem grandes batalhas navais e utilizam-se pela primeira vez submarinos e aviação -- incluindo os "dirigíveis" alimentados a hélio --, tanques blindados surgem na "terra de ninguém" em direcção à frente inimiga, os alemães utilizam gás venenoso no campo de batalha, que logo se generaliza. 

Com a decisiva entrada dos Estados Unidos na guerra em 1917, as potências centrais (Impérios alemão e austro-húngaro) admitem por fim à derrota e desmoronam-se.

A intervenção norte-americana também se relaciona com a progressiva retirada do cenário de guerra de uma moribunda Rússia czarista. A revolução de Fevereiro de 1917 força à abdicação do czar. Depois, com os bolcheviques no poder após a revolução de Outubro, Berlim impõe um tratado de paz (Brest-Litovsk, Março 1918) e concentra as suas tropas na frente ocidental, num derradeiro e inútil esforço. 

Mas mesmo os vencedores no terreno europeu saem exangues e nunca mais recuperarão o seu antigo esplendor imperial. 

O balanço é brutal: 40 milhões de mortos, feridos ou estropiados, entre militares e civis. Quase 10 milhões de militares, sobretudo os "soldados da frente", sucumbem em combates ou nas insalubres trincheiras escavadas pelos dois campos opositores. 

Os acordos de paz separados impostos pelas potências vitoriosas (EUA, Reino Unido, França e Itália), em particular o Tratado de Versalhes assinado com a Alemanha, confrontam-se com o colapso de regimes ancestrais e a emergência na Rússia do regime revolucionário. 

O mapa da Europa e do Médio Oriente será redesenhado na sequência do colapso dos impérios russo, austro-húngaro e otomano. 

Apesar das divergências entre os países vitoriosos, procura-se um acordo de paz que tornasse impossível uma nova guerra -- expressa nos 14 pontos do Presidente dos EUA Woodrow Wilson, o embrião da efémera Liga nas Nações --, mas que fracassa totalmente. 

A tomada do poder por Adolf Hitler na Alemanha, em Janeiro de 1933, será também uma consequência directa do desfecho da I Guerra Mundial e dos punitivos tratados de paz impostos aos vencidos, associada à "grande depressão" económica. 

Em 11 de Novembro de 1918, dia do armistício, este soldado de origem austríaca que se tinha destacado na frente, entretanto promovido a cabo e condecorado, estava em convalescença num hospital militar perto do mar Báltico. 

O seu regimento tinha sido atingido em Outubro por um ataque do temível gás mostarda, vindo de posições britânicas na frente belga, que quase o deixou cego.  

Ao ser informado sobre o fim da guerra, o cabo Hitler entrou em colapso emocional e no seu livro "Mein Kampf" (O meu combate) revelou que o dia da derrota alemã foi também o dia da sua "iluminação política".

Cerca de 20 anos depois, o mundo estava de novo em guerra. 

Lusa/SOL