Opiniao

Vamos tornar-nos uma raça de gigantes?

Numa visita que fiz certo dia a um monumento histórico de Lisboa – o Palácio da Ajuda –, houve um momento que me ficou gravado na memória. O guia deteve-se em frente a uma cama e explicou: «Esta era a cama do Rei. Devem estar a interrogar-se por que razão é tão pequena». Algumas pessoas do grupo acenaram com a cabeça. «O motivo não é o que estão a pensar», disse o nosso cicerone. «Nesta época, e durante muito tempo, as pessoas preferiam dormir sentadas. Achavam que quem ficava deitado eram os mortos».

Nunca consegui apurar se a explicação estava ou não correcta. De visita a outro monumento, ouvi a versão contrária – ou seja, que o comprimento das camas era proporcional ao tamanho de quem nelas dormia.
Independentemente disso, ninguém tem dúvidas de que a altura dos portugueses tem aumentado significativamente. De acordo com os registos de que dispomos, a estatura média da população nacional aumentou cerca de 10 centímetros nos últimos cem anos – um centímetro por década. E o fenómeno não é exclusivo de Portugal. Segundo um estudo realizado em Harvard, a geração dos actuais alunos daquela universidade é em média 3,5 cm mais alta do que a dos seus pais.

A melhoria da alimentação é apontada como a principal razão desse aumento da estatura. Hoje, os cereais de pequeno-almoço, por exemplo, são um autêntico cocktail de vitaminas, açúcares e minerais – o cereal propriamente dito serve apenas de base na qual são depois injectados os aditivos. As listas de ingredientes têm nomes tão estranhos que nos fazem pensar na bula de um medicamento.

O mesmo se pode dizer em relação ao leite das crianças (se é que ainda se lhe pode chamar leite): trata-se de um composto ‘reforçado’ com 13 vitaminas, cálcio, ferro, fósforo (felizmente não pega fogo) e dois tipos de ácidos gordos. Já para não falar dos alimentos super-calóricos, que poderão não ser muito benéficos para a saúde, mas fornecem proteínas e açúcares em grandes quantidades.

Se encararmos os alimentos como os tijolos de que é feito o ‘edifício’ do corpo humano, parece natural que nos dias que correm esse edifí-cio atinja maiores dimensões, mesmo que não seja necessariamente mais sólido.

O tamanho das embalagens nas sociedades mais evoluídas é um bom espelho disso. Certo dia, num restaurante de comida rápida nos Estados Unidos da América, fiquei boquiaberto ao constatar que o refrigerante ‘pequeno’ era o equivalente ao tamanho médio ou grande em Portugal – cerca de meio litro. O refrigerante grande, por sua vez, era simplesmente assustador: um balde com capacidade para dois litros de bebida.

O que pensariam os nossos antepassados – os mesmos que dormiam nas tais camas minúsculas – se pudessem viajar no tempo e vislumbrar esses baldes de dois litros e arranha-céus com 100 andares? Provavelmente chegariam à conclusão lógica de que os homens dos tempos actuais são uma espécie de gigantes. E não andariam assim tão longe da verdade. 

jose.c.saraiva@sol.pt