Cultura

Exposição no MUDE conta como eram os interiores do Estado Novo

Quem tem memórias anteriores ao 25 de Abril, ou dos anos que se lhe seguiram, não deixará de sentir com a exposição O Respeito e a Disciplina Que a Todos se Impõe. Mobiliário Para Edifícios Públicos em Portugal (1935-1974), um flashback ao seu passado.

Está lá, pela primeira vez num museu, o recheio das pousadas, dos liceus , dos hospitais, enfim, dos sítios públicos que o cidadão frequentava. Sítios que, percebemos hoje,  correspondem a uma estética criada por decreto. Que foi evoluindo, mas que temia, por princípio, o inovador.

Numa primeira fase dos longos anos do Estado Novo,  os móveis -- o exemplo exposto é o  do mobiliário para liceus – eram integralmente em madeira, “matéria -prima preferida durante muito tempo, porque o metálico representava os ventos de mudança do modernismo estrangeiro”, explica o arquitecto João Paulo Martins, curador da exposição. Privilegiava-se o sólido e o tradicional.

Mas enquanto a estética era austera e controlada, havia sempre o possível e aceite elemento humanizador: as plantas em vasos que embelezavam os locais públicos. Foi isso que perceberam, vendo fotografias da época, Pedro Ferreira e Rita João,  do colectivo Pedrita, autores do design da exposição.

E é por isso que à entrada, no 2.º piso, há uma ala composta pelas plantas que estavam na moda na época: fetos, árvores de borracha e um tipo particular de cactos. Nada de orquídeas. E foi a primeira vez que , em quatro anos de vida, uma planta entrou no MUDE , adianta Bárbara Coutinho, directora deste museu. Porquê esta interdição? “Tornou-se um gesto corriqueiro em Portugal colocar um arranjo de flores sempre que há uma inauguração, ou algum acto oficial. E isso para nós não faz sentido. Os homens dos viveiros devem ter ficado espantados quando perceberam que estas plantas vinham para o MUDE”, brinca.

Há um bom motivo para não perder esta exposição. “Têm sido muito falados e estudados os arquitectos do Estado Novo, mas os interiores não têm sido sequer estudados”, explica Bárbara Coutinho. E a quase totalidade dos 100 objectos da exposição nunca tinha entrado no espaço de um museu, poucos estavam ainda em uso, a maioria tinha sido descartada. Mas todos chegaram ao MUDE sem passarem por processos de maquilhagem. Estão ali tal e qual foram encontrados. É o caso da colecção de peças de mobiliário de uma enfermaria do Hospital dos Capuchos.

 ”Acho que é a primeira vez que se faz esta apresentação do mobiliário e do design dos espaços públicos do Estado Novo”, resume a directora do MUDE.

A exposição partiu do projecto de investigação: Móveis Modernos.1940/1980, do Centro de Investigação em Arquitectura, Urbanismo e Design da Faculdade de Arquitectura de Lisboa, de que João Paulo Martins foi o investigador principal.

Mas como eram mobilados os espaços do Estado? Tudo era feito por encomenda. “Não se ia à loja comprar”, recorda João Paulo Martins.  Em 1940 foi criada, no seio do Ministério das Obras Públicas e Comunicações, uma Comissão para a Aquisição de Mobiliário (CAM), que dirigia a compra e estabelecia os princípios orientadores da paisagem interior dos edifícios do Estado, de acordo com uma linha ideológica visível, basicamente reveladora da necessidade de manter a disciplina, a ordem e uma uniformidade no território continental. 

Nos primeiros anos, há um gosto marcado pelo mobiliário rústico, como o feito para a Estação Agronómica Nacional, ou para a coudelaria de Alter do Chão. E era comum a cópia de móveis históricos, como a cadeira decalcada de uma do Museu da Misericórdia, feita para muitas pousadas e palácios, e de que o exemplar exposto foi emprestado pela Cidadela de Cascais.

Só a  segunda metade da década de 50 traria ‘velhos tipos, nova geometria, nova geografia’. “Com novos materiais como os plásticos, as fórmicas, o metal e uma geometria feita de triângulos arredondados, um pouco em linha com o que se fazia lá fora”, explica João Paulo Martins.

Os móveis que vieram do Serviço de Fomento Mineiro reflectem e reinventam, por sua vez, um gosto vindo dos países nórdicos, prático e contido, de linhas claras.

A Pousada de São Teotónio, com projecto do Arquitecto João Andersen, ilustra um novo ecletismo em que o mobiliário de linhas mais modernas é colocado lado a lado com uma cadeira absolutamente rústica. Um jogo de harmonia por contrastes.

Outro dos ícones dos anos  50, a cadeira Lady, um marco na história do design, do arquitecto Marco Zanuso e produzida pela Arflex, foi apropriada por esta década mais permeável à novidade internacional. “Havia ‘ladys’ por todo o lado”, diz João Paulo Martins. “A Faculdade de Medicina do Porto ainda tem umas ‘ladys’ impecáveis, mas com pés em madeira, portanto genuinamente falsas”, ironiza.

Um dos nomes maiores do design português, Daciano Costa, também foi chamado a intervir nos espaços públicos. O exemplo exposto é o mobiliário da sala de leitura da Biblioteca Nacional (BN), neste momento guardado em reservas, depois da remodelação que a BN sofreu recentemente.

Nos anos 60 chegaria a standardização, com encomendas de móveis modulares à Fábrica Portugal, à Longra, e à Olaio. E o metal entraria em força, com pesadas secretárias e armários produzidos pela Steel.

Entrada livre, até 2 de Novembro.

telma.miguel@sol.pt