Internacional

Ateus americanos precisam de programa na TV para ‘sair do armário’

É uma situação que pode parecer bastante bizarra para grande parte dos europeus, mas nos Estados Unidos da América, ao que tudo indica, é um problema generalizado: os ateus sentem-se oprimidos na comunidade e muitos têm medo de afirmar, publicamente, que não acreditam em Deus.

Para combater este problema, os não-crentes decidiram lançar um programa de televisão para que todos se possam assumir publicamente e partilharem as suas experiências. “Por vezes as coisas têm que ser ditas e há guerras que têm que ser travadas, mesmo que não sejam populares”, disse David Silverman, presidente da organização dos americanos ateus, no seu discurso durante o lançamento do programa. “Para todos os que ainda não saíram do armário digo: não estão sozinhos, merecem ser tratados como iguais”, concluiu.

Uma recente sondagem da  empresa americana Pew Research Centre apurou que os americanos preferiam ter um presidente com mais de 70 anos, abertamente gay ou sem experiência política, do que ateu.

O programa de televisão já foi alvo de telefonemas bastante peculiares. “Não acreditam em Deus? Vocês são o diabo!”, foi um dos comentários, mas não o mais extravagante. “Tu és um marxista e és russo!”,  acusou outro ouvinte. 

Segundo a Pew Research Centre, apenas 2% dos adultos americanos se dizem ateus, contudo este número é bastante maior entre os jovens. Entre os mais novos, já existe uma grande percentagem de pessias “religiosamente incólumes”, explicou Andrew Seidel, advogado da Fundação da Liberdade Religiosa. 

“Muitos americanos acham que nunca conheceram nenhum ateu, mas isso é porque muitos deles têm medo de se assumir”, acrescentou.

Num dos maiores encontros de estudantes ateus no país, em Ohio, Jamila Bey, a representante da Aliança dos estudantes seculares, salientou que os jovens ainda têm muito medo de contarem aos pais que não acreditam e não seguem as mesmas crenças que eles.

Lasan Dancy-Bangura relatou  à BBC o momento em que teve “a conversa” com a mãe. “Ela ficou muito zangada, depois nunca mais falámos sobre isso porque tenho medo que me expulse de casa”. A jovem assumiu que ainda não teve coragem de contar ao pai: “Não quero que a nossa relação se destrua por causa disto.”

Já Kathelyn Campbpell, de 19 anos e que vive no Estado da Virgínia, afirma que os pais foram bastante receptivos e abertos em relação ao tema. O problema foi na comunidade. Há dois anos organizou um protesto contra a inclusão da religião e da abstinência nas aulas de educação sexual e isso trouxe-lhe “bastantes dissabores”.  

Um representante da Fundação da Liberdade Religiosa considera que para conseguir o respeito e a aceitação por parte da comunidade, os ateus devem  fazer o mesmo que o movimento LGBT (Lésbicas Gays Bissexuais e Transexuais). “ O importante é sair à rua e dizer em voz bem alta e com orgulho: sou ateu!”,  afirma.