Opiniao

As dores de Sócrates

Há uns anos, existia um país que ouvia falar num dos maiores escândalos de tráfico de influências que, supostamente, incluía governantes, um dos quais ocupava o lugar mais importante na hierarquia, apesar de oficialmente ser o terceiro. 

Os investigadores que andavam atrás das tais trocas de favores ‘deram de ouvidos’ com conversas que os magistrados responsáveis pela investigação consideravam graves e que justificavam a abertura de um processo autónomo.

No topo da hierarquia judicial estavam dois personagens que pensavam de maneira diferente dos investigadores do processo. Afinal, as duas personagens ouviram o que diziam as tais escutas e concluíram que a matéria só dava para rir, tal a inocência das mesmas.

Como um dos principais alvos das escutas estava no exercício do Poder, seria suposto que as mesmas conversas fossem validadas até para que não restassem dúvidas algumas sobre a inocência de tal figura. Segundo o que se sabe, as escutas não tinham qualquer conversa privada que falasse de amores ou desamores ou de problemas familiares. Elas versavam, sim, sobre negócios que metiam jornais, televisões e jornalistas. Isto segundo o que foi dito. Apesar de as escutas fazerem rir, o que se sabe é que os responsáveis, directos ou indirectos, pelo processo receberam ordens clarinhas para destruírem as cassetes que continham as tais conversas.

Uns anos depois, um banqueiro que tinha excelentes relações com essa ‘turma’ das influências, foi detido e ouvido na qualidade de arguido. Segundo a investigação há indícios de abuso de confiança, burla agravada, branqueamento, falsificação e fraude fiscal. No Luxemburgo as manobras desse banqueiro estão a ser investigadas pelas autoridades fiscais.

Qual não é o espanto quando neste país de faz de conta se começa a levantar um coro de indignados por o tal banqueiro ter sido detido para interrogatório, alegando-se que se estivesse ainda na presidência do banco nada disto lhe teria acontecido. E quem foi a voz mais indignada e que exige explicações aos magistrados?

Precisamente o tal político que se livrou das investigações por estar no Poder e as escutas onde aparecia não terem sido validadas por isso mesmo.

P. S. Num caso ‘relacionado’ com o do BES o actual primeiro-ministro não foi escutado e não foi divulgado o teor das conversas? Sim.. Esperemos então que a Justiça não ande para trás e que seja cada vez mais separada do poder político. A bem da transparência e para que não nos ocultem coisas graves. 

vitor.rainho@sol.pt