Mal

Não é preciso analisar com grande profundidade a História para além da que é leccionada no ensino básico e secundário para se perceber que a Arte de maldizer faz parte da nossa identidade. 

Sim, é uma Arte. Substantivemos sem pudor. 

Entra na corrente sanguínea impelida pela força de cada batida do coração. Dizer mal é então uma necessidade fisiológica que como tal se sobrepõe à razão. Assim sendo, escarnecer tem evoluído inevitavelmente ao longo dos tempos. Tem vindo a refinar-se, a apurar-se e a ganhar novas formas, a aproveitar novos veículos e a conquistar novos territórios. 

É comum associar-se o escárnio ao anonimato ou à criação de heterónimos aquando da produção literária com o intuito de maldizer. Diria que é muitíssimo mais comum fazê-lo às escuras, uma vez que mais de metade da satisfação envolvida no acto de dizer mal correria o risco de se perder caso se fizesse às claras. Já que neste acto específico a comunicação deve ser estabelecida entre um emissor e um receptor, quanta da graça da ofensa estaria em risco caso o emissor se descobrisse? Não é tão mas tão mais delicioso e cruel saber quem se ataca e nunca deixar a vítima saber qual é a fonte? Todo o processo deve ser um deleite pegado! 
Todo este processo sempre me fascinou. A emissão alheada da veracidade da noção real de self mais a recepção incerta. UAU!

Ponha os dedos molhados numa tomada a primeira alma que nunca disse mal de nada ou de ninguém. Ponha a língua numa tomada quem nunca disse mal de ninguém sem revelar a identidade.

Tendo em conta que todos os processos são ficcionais, que o processo da escrita é ficcional e que toda e qualquer manifestação escrita, é, portanto, ficcional, sempre me fascinou a criação de mais uma meta personagem para o ataque ou defesa de posições que, fora desse cricuito ficcional, podem ser entendidas como ofensivas. Fascina-me a necessidade de criação de mais uma persona para veicular fantasias condenáveis no contexto social. Adoro a oscilação entre real e ficção que as personagens permitem a quem as cria. É fascinante efabular sobre personagens de ficção. É como aqueles actores que não ‘saem’ da personagem, como se a personagem fosse um local onde o real deixasse de existir temporariamente para que a vida dos actores parasse e os textos fossem ditos por alguém em transe. Como se o actor fosse um xamã que vivesse experiências extra-corporais. Com o intuito de contrariar o processo ficcional (totalmente aplicável a este contexto) há um título muito divertido, de 1966, da autoria do dramaturgo austríaco Peter Handke; chama-se Insulto ao Público. 

Segundo alguns autores, a internet  ainda não é uma invenção revolucionária quando comparada com invenções como a máquina de lavar roupa. No entanto, a internet é responsável pela revolução do processo ficcional ao nível do insulto, do escárnio e da maledicência praticada por uma série de emissores que contam permanentemente com público. 

Desde os primórdios do consumo alargado da internet que os utilizadores de todo o tipo de ferramentas de comunicação têm vindo a utilizar nicknames (a denominação pós contemporânea de ‘heterónimo’). Por detrás dos nicknames sempre houve uma audácia muito interessante, muito mordaz e bastante incisiva. A incapacidade de determinar a origem do insulto na era da internet faz com que insultar publicamente seja então uma prática comum, recorrente e muito alargada. É o apogeu da inclusão, a internet! O espaço onde todos somos livres de manifestar a nossa opinião para um público. 

Para mim, a questão do anonimato na internet não me parece mais do que a versão contemporânea das picardias de outrora. Também não me parece muito interessante, uma vez que não passa da ficcionalização de um processo de escárnio num meio público, facto que eleva o insulto cibernáutico a um estatuto velhíssimo em que, no que deveria ser a vivência plena e extrema da democracia social, ideológica, e em último caso biopolítica, tem de se recorrer à ficção para se ser livre, para a expressão aberta de uma forma de ódio. 
Não deixo de adorar o ódio cibernáutico e de entender que se faz com o intuito de criar uma comunidade dentro da comunidade à margem da comunidade. 

joanabarrios.com