Internacional

Para a Argentina o mundo não acabou, ainda

A profecia realizou-se. Aqui, na Argentina, diz-se que há uma crise em cada década. Treze anos depois da grande falência de 2001, o país entra novamente em incumprimento. Mas desta vez é “diferente”, acreditam os argentinos.

“O pagamento foi feito. Os credores não receberam porque o juiz Thomas Griesa embargou o dinheiro até se chegar a acordo com os fundos-abutre”, diz-nos Eugenio López, 46 anos, funcionário público. “Pela ganância de 8% dos devedores, os restantes 92% não podem receber o pagamento a tempo e horas”, defende a técnica de contas de 26 anos, Lujan Usieto. A própria Presidente, Cristina Kirchner, insiste que procuremos no dicionário: “Terão de inventar outro nome, porque default é não pagar. Não é proibir que se cobre. Nós pagámos”.

Palavras que, para muitos, são areia para os olhos. A começar pelas agências de rating, que classificaram a situação do país como “default selectivo” ou “default parcial”, como para as agências internacionais que já activaram a cobrança dos CDS (credit default swaps), espécie de seguro contra o incumprimento, e a terminar na maioria dos argentinos com quem falámos.

"O sentimento geral é de resignação” 

Resignação o que diz sentir Georgina Lufrano, 34 anos, contabilista. “Sentimos que, quem quer que esteja no poder, não defenderá os nossos interesses e a economia real”. Para já, “a maioria dos argentinos está à espera para ver se se preocupa ou não”. Isto porque, pelo comportamento do Governo e, em especial, pela tranquilidade do ministro da Economia à saída da reunião da passada quarta-feira, dia 30 de Julho (último dia para evitar o default), todos esperam que exista um trunfo na manga pronto para fazer xeque-mate aos investidores.

Rodrigo Abd/AP

“Não há muito que possamos fazer. As nossas poupanças estão em pesos, que tem desvalorizado constantemente. A compra de dólares está limitada e as transferências em moeda estrangeira proibidas. Para o argentino médio o que lhe resta é não fazer nada: se ia comprar uma casa já não compra, se ia vender já não vende, nas empresas onde surjam dificuldades despede-se e os três principais motores da economia – exportações, imobiliário e construção – vão abrandar”, prevê Georgina Lufrano.

Uma crise que pode atingir as proporções de 2001?

O economista Eduardo Fracchia, professor na IAE Business School, alerta para uma “destruição consecutiva do emprego” e para uma “queda da actividade económica nos últimos três meses” que tenderá a agravar-se agora, mas afasta, para já, o cenário da crise anterior. “Em 2001, a actividade económica estava em queda há mais de dois anos. Além disso, havia uma crise cambiária e financeira”, algo que não sucede actualmente.

Certo é que as estatísticas pioraram. Se era esperada um crescimento em torno de 1% do PIB no final de 2014, agora as previsões apontam para uma recessão na ordem dos 3% a 3,5%.

Rodrigo Abd/AP

Outro problema é a inflação, que só no ano passado superou os 28%, a mais alta desde 2003, fazendo prever que algo ia mal na economia. Só em Janeiro último, os preços praticamente duplicaram, ao mesmo tempo que o peso cai constantemente face ao dólar. Uma diferença que se acentua todos os dias desta a passada quarta-feira.

O conflito remonta a 2005 e 2010

Voltamos atrás no tempo, quando o Governo reestruturou a dívida. A maioria dos credores aceitou as condições apresentadas, mas 8% não alinharam nas negociações e venderam os títulos a fundos privados - NML Capital Ldt, do multimilionário Paul Singer, e Aurelius Capital Management. São estes fundos que reclamam, agora, o pagamento com as condições iniciais. Contas feitas, com juros incluídos, trata-se de uma dívida de cerca de 1,2 mil milhões de euros. O caso culminou na Corte Suprema de Justiça de Nova Iorque, mas o Estado argentino perdeu. O juiz Thomas Griesa deu razão aos fundos, uma decisão polémica mesmo nos EUA. O The New York Times classificou-a como uma “campanha contra a Argentina”.

“Este é um problema moral. A decisão do juiz abriu a porta à participação de mais 'fundos-abutres' no futuro”, comenta José Eliceche, engenheiro, 35 anos.

Para agravar o cenário, existe a cláusula RUFO que permite que, caso um credor obtenha melhores condições de pagamento do que aquelas definidas em 2005 e em 2010, os restantes credores também poderão exigir condições semelhantes. Uma situação incomportável para o país. Esta cláusula termina no último dia de 2014 e, por isso, o Governo argentino pede um “stay”, espécie de “stand by” nas negociações com os 'fundos-abutres', até Janeiro do próximo ano. Mas 2015 ainda está longe. E muitos apontam o dedo à postura “inflexível” e “arrogante” da equipa kirchnerista como a culpada desta situação-limite.

E agora?

Para o economista Eduardo Fracchia é preciso negociar com os detentores da dívida reestruturada (os tais 92%) o fim da cláusula RUFO, “para que haja lugar a diferentes interpretações e que seja possível chegar a um acordo, sem a pressão de fazer cair os acordos anteriores”.  

Mas a decisão passa, invariavelmente, pela mão dos credores que também têm a opção de pedir a aceleração dos pagamentos e do capital e dos juros. Para isso, basta que 25% decidam activar esta clásula, estipulada como salvaguarda em caso de default. Têm 60 dias para o fazer.   

David Fernández/EPA

O mais provável, no entanto, é que sejam os bancos estrangeiros e nacionais a comprar a dívida aos 'fundos-abutre' e a renegociar, depois, com o Governo argentino. De acordo com a imprensa económica local, executivos do Citibank, HSBC e JP Morgan já estão em Buenos Aires. Mas no mercado, esta operação também levanta dúvidas, uma vez que os bancos têm de apresentar uma garantia de recuperação do dinheiro investido na compra da dívida.

Para já, estes planos e a esperança de que a Argentina negoceie uma saída do default, como ordenou o juiz Griesa na reunião de emergência da passada sexta-feira, contêm a queda para um precipício ainda maior.

SOL