Sociedade

Igreja aconselha emigrantes a 'não se iludirem'

A Igreja Católica está preocupada com os emigrantes portugueses que “se deixam iludir” por promessas de altos rendimentos nos países de destino, alertando para a necessidade de se prepararem antes de saírem do país.

“É preciso que as pessoas se informem e se preparem bem para que emigrem com segurança”, disse hoje à agência Lusa o director da Obra Católica Portuguesa de Migrações, frei Francisco Sales Diniz, aconselhando a que previamente contactem as instituições do Estado ou da Igreja.

A propósito da peregrinação dos migrantes ao Santuário de Fátima, que decorre na terça e na quarta-feira, Francisco Sales Diniz afirmou que “há emigrantes que pagam autênticas fortunas a terceiros que lhes prometem trabalho e, quando chegam ao destino, essas pessoas não existem”.

“Muitos deixam iludir-se por promessas de grandes rendimentos que são, afinal, falsas, feitas por angariadores de mão-de-obra barata e até de tráfico de pessoas. A Internet é um bom meio para iludir as pessoas”, declarou o responsável, considerando que “muita gente emigra ‘à aventura’, sem ter preparado antes o seu caminho”.

Notando existirem “casos esporádicos de portugueses, vítimas de tráfico humano para exploração laboral no estrangeiro”, sobretudo para a agricultura e construção civil, o diretor defende que os diversos tipos de exploração exigem a concertação dos Estados, a coordenação das forças de segurança e dos sistemas judiciais, das organizações não-governamentais e a sensibilização dos cidadãos.

A peregrinação dos migrantes é, este ano, centrada nos emigrantes portugueses, devido “ao grande aumento do número de emigrantes”, alguns “com tantas dificuldades lá fora e a viverem situações dramáticas”, adiantou Francisco Sales Diniz.

Estima-se que, entre 2007 e 2012, deixaram o país, em média, 80 mil portugueses por ano.

“Há uma diferença entre a emigração portuguesa da década de 60 e a atual. Na altura, os emigrantes que partiram viviam em extrema pobreza, foram trabalhar e pouparam sempre com o desejo de voltarem, nunca perdendo a sua dignidade. O que assistimos agora é que há pessoas, que tinham um estilo de vida médio, que emigram e começam a degradar-se. Há casos que caem na rua e tornam-se sem-abrigo e não têm capacidade de se reerguer”, alertou.

Segundo o responsável, países como o Reino Unido, Suíça, Luxemburgo ou França contam, entre a população sem-abrigo, cidadãos portugueses, mas a Obra Católica Portuguesa de Migrações “não tem números desta realidade”.

Adivinhando que a emigração vai continuar a aumentar, “devido à crise económica e à falta de trabalho”, o diretor da obra disse olhar “com muita preocupação para o futuro de Portugal”, que se está a transformar “num país de velhos”, duvidando de que “o Estado Social tenha capacidade para se aguentar”, mas esperançado em que “o futuro talvez seja melhor”.

A peregrinação dos migrantes, presidida pelo bispo do Porto, é o ponto alto da 42.ª Semana Nacional de Migrações - este ano subordinada ao tema “Migrações, rumo a um mundo melhor” - que arrancou no domingo e termina uma semana mais tarde, no próximo dia 17.

Nesse dia, o ofertório das missas vai reverter para a Pastoral da Mobilidade Humana.

Lusa / SOL