Internacional

Com atrocidades a Norte, Bagdade apresenta novo PM

No Norte do Iraque, o avanço dos terroristas do Estado Islâmico do Iraque e do Levante (ISIL na sigla inglesa) provoca o pânico entre as minorias religiosas do país, havendo até denúncias de genocídio da comunidade curda yazidi, e motivou o regresso do exército dos Estados Unidos, com ataques selectivos iniciados na semana passada.

Mas, em Bagdade, o primeiro-ministro Nouri al-Maliki mostra-se mergulhado noutra luta, que não está disposto a perder. “Quero dizer a todos para não se preocuparem, tudo o que aconteceu hoje não tem significado nenhum”, disse Maliki em discurso gravado, emitido esta manhã na TV iraquiana.

Não se referia à denúncia feita pelo porta-voz do Ministério dos Direitos Humanos, que dava conta que centenas de mulheres da comunidade yazidi estavam sob sequestro nas mãos dos extremistas sob o perigo de serem “usadas de forma degradante para satisfazer as necessidades animais de terroristas que contrariam os valores humanos e islâmicos”.

Nouri al-Maliki, que é acusado de ter fomentado durante os oito anos de Governo o sectarismo que agora deu grande apoio popular aos extremistas do ISIL junto da população sunita, referia-se à decisão do Presidente Fouad Massoum de encarregar o número 2 da Assembleia Nacional, Haider al-Abadi, da tarefa de formar um novo Governo no prazo de 30 dias.

Abadi pertence ao Partido Islâmico Dawa, o mais votado entre a coligação de partidos xiitas que se tornou vencedora nas eleições de Abril. O problema é que Maliki é do mesmo partido e como líder e primeiro-ministro esperava ser ele o nomeado para a chefia do próximo Governo. Mas tanto dentro como fora do Iraque, os EUA já elogiaram a escolha de Abadi, sucederam-se nas últimas semanas os apelos para que se encontrasse uma figura capaz de promover a reconciliação nacional num momento em que os extremistas sunitas ganham cada vez mais terreno no Norte do país.

Já na noite de domingo, quando tomou conhecimento que o seu próprio partido estava próximo de aceitar a solução defendida pelos rivais, Maliki tinha acusado o curdo Fouad Massoum de “violar a Constituição” ao não convidar o líder do partido mais votado a formar Governo. Uma declaração que motivou uma manifestação dos seus apoiantes, que já hoje consideraram o anúncio do Presidente uma "conspiração curda e norte-americana".

Ao mesmo tempo, Barack Obama voltou a garantir que os Estados Unidos não enviarão tropas de combate para o Iraque para além dos militares que já estão destacados nos ataques aéreos contra posições do ISIL, iniciados na sexta-feira. O Presidente norte-americano tenta assim conter os apelos republicanos para uma operação de larga escala no país que teve tropas norte-americanas no terreno de 2003 a 2001, ano em que Obama ordenou a retirada total contra a vontade de Bagdade.

nuno.e.lima@sol.pt