Resoluções

Resolução 1: o comissário europeu. O engenheiro Carlos Moedas foi proposto para comissário europeu.  Tenho dele a melhor das opiniões: muito bem preparado, trabalhador incansável, inteligente e discreto. 

Acima de tudo impressionou-me o ter abandonado o conforto da Goldman Sachs para se  submeter a sufrágio nas últimas eleições, naquilo que deveria ser o teste do ácido para todos os candidatos a governantes. Contra esta resolução, levantaram-se  as vozes dos que preferiam alguém com peso político, que tivesse sido ministro e que falasse grosso em Bruxelas. Enfim, preferiam uma cigarra ao invés de uma formiga. Estão enganados! Em Portugal não existem políticos com peso europeu, e falar grosso e alto não significa ser escutado. A única forma que um país pequeno e debilitado como Portugal tem para ser influente é através da qualidade das contribuições que, aos diferentes níveis, consegue dar para a construção europeia. Quem não tem músculo tem de se socorrer da ‘massa cinzenta’. E isso tem Carlos Moedas em abundância. Vai ser um sucesso e vai rapidamente tornar-se uma peça indispensável da futura Comissão.

Resolução 2: a resolução do BES. Aí está, o mais poderoso banco privado nacional faliu e acabou, algo inimaginável ainda há umas semanas. A solução encontrada  foi hábil pois evitou uma resolução descontrolada, que poria em causa os depositantes não-seguros, e um puro bail-out à la BPN, suportado directamente pelos contribuintes ( e que reforçaria o nexo perverso entre crises bancária e crises soberanas). Não sei se é a solução perfeita, mas não me ocorre outra substancialmente diferente.  Quem a critica deverá explicitar uma alternativa. Ainda assim existem alguns aspectos intrigantes e que certamente o tempo esclarecerá. Menciono apenas dois. Qual o estatuto dos créditos de cerca de 3 mil milhões de euros ao BESA: a participação no capital sabemo-la  parqueada no bad-bank; e os créditos? Em segundo lugar, porque foi dívida sénior poupada no bail-in? Para proteger aforradores? E quais?
 
Se a solução não me oferece grandes críticas, o processo que a ela conduziu é merecedor de reflexão. Não falo dos aspectos mais óbvios, como a manutenção em funções durante vários dias de uma equipa de gestão que sabia ir ser demitida. Falo, antes, do prolongado e complexo jogo de xadrez que se desenrolou durante cerca de uma ano entre o Banco de Portugal e o BES, e que acabou com um dos jogadores a atirar  o tabuleiro pelo ar. O tempo e a lentidão causam perplexidade e, quando de um lado existe intenção dolosa, criam oportunidade para toda  a sorte de malfeitorias. Esta morosidade não é um exclusivo nacional.

Vimo-la, por exemplo, na Irlanda, na Islândia  ou na Espanha. Radica na assimetria dos risco envolvidos ou, se se pretender, na concessão do benefício da dúvida. Tipicamente, os reguladores supõem que podem estar errados e só agem quando existe evidência esmagadora e incontroversa de irregularidades. São conservadores porque o custo (sistémico e pessoal) de fazerem uma acusação que se venha a provar errada é considerado excessivo. É o chamado custo de um erro de primeira espécie. Mas quando as ilegalidades se perspectivam como muito graves e socialmente danosas, os reguladores devem prestar mais atenção ao erro de segunda espécie, aquele que resulta de deixar culpados em liberdade.