Internacional

“Não havia uma única parte dos ossos reconhecível”

O Boqueirão, bairro de classe média de Santos, cidade do litoral de São Paulo, acordou hoje cedo demais e com um movimento atípico. Dezenas de jornalistas, equipas de protecção civil e de perícia, bombeiros, polícia federal e curiosos esperavam novidades saídas do quarteirão onde, ontem de manhã, caiu o jacto particular que transportava Eduardo Campos, candidato do Partido Socialista Brasileiro (PSB) às eleições presidenciais de 5 de Outubro, dois dos seus assessores, dois repórteres de imagem e dois pilotos. Todos morreram. 

O impacto da queda foi tal que abriu uma cratera de 1,50 metros de profundidade Ricardo Rego
Ricardo Rego
Adriana decidiu fazer uma homenagem ao piloto levando um pequeno cartaz para a rua Ricardo Rego
Ricardo Rego
Ricardo Rego

Jean Monchieu, engenheiro reformado de 67 anos, estava em casa quando o aparelho se despenhou nas traseiras do seu quintal, entre a piscina e um terreno baldio, a cerca de 300 metros da porta da cozinha. “A explosão foi absurda. Os vidros da casa estalaram. Pensava que era uma explosão de gás. Quando abri a porta que dá acesso ao quintal para ver o que se passava, só consegui ver chamas por todos os lados”, recordou ao SOL esta manhã, ainda de toalha branca sobre os ombros e enquanto uma equipa da Polícia Federal fazia o registo fotográfico na sua casa. 

Luciana Misseli, 42 anos, advogada, estava a chegar a casa de carro quando sentiu uma onda anormal de calor. “No momento em que o avião passa entre os dois prédios, só vejo uma bola de fogo. Não sabia sequer aquilo o que era: se era avião ou helicóptero. Parei o carro no meio da rua e fui a correr para casa para ligar para os bombeiros, já o avião tinha caído e explodido. Voltei a sair e, neste momento, vejo uma senhora de idade com uma menina toda a queimada a sair de um prédio que ficava num dos blocos que fecha o quarteirão”, relata ao SOL, ainda atordoada com o que se passou no dia anterior num bairro habitado maioritariamente por aposentados, a dois passos de uma extensa costa com praias.  

A aeronave, modelo Cessna 560XL, que transportava o candidato presidencial, partiu do Rio de Janeiro rumo à base aérea de Santos, em Guarujá, onde Eduardo Campos tinha uma acção de campanha às 10 horas. O acidente ocorreu quando o jacto já voava a baixa altitude e depois de ter perdido a comunicação com o controlo aéreo. Pelo menos 10 pessoas tiveram de receber assistência hospitalar e três casas sofreram danos com a queda do avião. Só esta tarde os residentes as casas atingidas poderão regressar a casa, avançou fonte da protecção civil. Os proprietários queixam-se da falta de acompanhamento das autoridades. Criticam o facto de apenas terem sido impedidos de passar a noite em casa sem que lhes fosse dada ajuda para encontrar uma alternativa. 

Ontem à noite, o médico dentista pessoal do ex-governador de Pernanbuco voou de Recife para São Paulo para ajudar nos testes de perícia. A identificação dos corpos só poderá ser feita com testes de ADN. “Não havia uma única parte dos ossos reconhecível. Os corpos dos passageiros estavam fragmentados”, confirmou Roberto Lagos, tenente-coronel do Corpo de Bombeiros de São Paulo, esta manhã. As equipas de busca e resgate trabalharam toda a noite acompanhados pela perícia. A caixa preta da aeronave foi encontrada ao cair da noite e recolhida para ser analisada em Brasília pelo Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos. De manhã, as rádios avançavam ainda que durante a noite teria sido descoberta a carteira de documentos de Eduardo Campos.

O impacto da queda foi tal que abriu uma cratera de 1,50 metros de profundidade e 2,40 de laguna no terreno baldio, segundo Roberto Lagos. A aeronave terá caído a pico. O avião ficou reduzido a sucata. A cabina dos pilotos ficou reduzida a nada. Poderia ter sido uma tragédia com repercussões muito maiores. O piloto conseguiu atingir apenas umas casa abandonada e um terreno baldio. Foi sorte ou competência do piloto, porque face ao desenho da zona, o acidente podia ter sido maior”, disse ainda o tenente-coronel, para logo depois garantir que ninguém da empresa proprietária do jacto particular visitou o local onde o aparelho se despenhou. 

Adriana Passos, 45 anos, dona de casa, estava precisamente a preparar o almoço com a empregada quando sentiu uma forte explosão à sua frente. Tem uma casa paredes meias com a ginásio que que ficou sem telhado, a 300 metros. O marido, sindicalista e militante do PSB, que estava no trabalho na hora do acidente, saiu de casa a dizer que teria um encontro com Eduardo Campos. Hoje, Adriana decidiu fazer uma homenagem ao piloto levando um pequeno cartaz para a rua através do qual agradecia estar viva por causa do piloto. “Ele salvou vidas com a sua destreza de deixar cair o avião numa zona onde não havia nada. O avião caiu à frente da minha casa. Eu podia nem estar aqui a falar consigo agora”, diz. 

Os trabalhos de pesquisa e de investigação no local do acidente deverão ficar concluídas até ao final do dia de hoje. A investigação prossegue no Instituto de Medicina Legal, em São Paulo, onde estão a chegar, às partes, os corpos dos passageiros do fatídico voo. As caixas negras já estão em Brasília. Mas segundo a imprensa brasileira, o avião só tinha caixas negras para registo de voz e não de dados. O apuramento da causa do acidente poderá levar meses. Segundo alguma imprensa brasileira, em Junho já teriam sido detectados problemas com a aeronave. Nada que impedisse Eduardo Campos e parte da sua comitiva de a usar para uma deslocação em campanha eleitoral. A última acção de campanha do então candidato à presidência do Brasil. 

ricardo.rego@sol.pt