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Snowden: O homem mais procurado do mundo falou

  

Edward Snowden, o homem que revelou ao mundo a dimensão e a ilegalidade da máquina global de espionagem electrónica dos Estados Unidos, concedeu uma entrevista à revista norte-americana Wired.

Num testemunho exclusivo, o antigo agente da NSA revela o que o levou a denunciar as acções ilegais dos serviços secretos norte-americanos. A Wired encontrou-se com Snowden e Moscovo após nove meses de contactos indirectos.

Na capital russa, Snowden leva uma vida modesta e vai às compras numa mercearia de bairro onde ninguém o reconheceu ainda. Vive pela hora de Nova Iorque e não pela de Moscovo, de modo a comunicar com os seus associados nos Estados Unidos.

Regressará aos EUA? Não tão cedo. “Eu disse ao Governo que me apresentava voluntariamente na prisão se isso servisse o propósito certo. (..) Preocupo-me mais com o país do que com o que possa acontecer comigo. Mas não podemos permitir que a lei seja transformada numa arma política nem concordar que se intimidem pessoas que decidem fazer valer os seus direitos. Eu não participarei nisso”, afirma.

À revista, conta que já não tem em sua posse os documentos roubados à NSA. Estes estão nas mãos de três entidades: a First Look Media, fundada pelo jornalista norte-americano radicado Gleen Greenwald (que foi o primeiro a entrevistar Snowden); o jornal britânico The Guardian, que cedeu as suas cópias ao New York Times, e por fim Barton Gellman, jornalista do Washington Post.

E volta a dizer que o alvo das suas acções não são os Estados Unidos, mas sim as actividades ilegais da NSA. Não tem segredos de Estado para vender e não trabalha para os russos.

Garante que não levou informação sensível, mas apenas dados que permitem revelar a existência de uma máquina de espionagem ilegal. Ou seja, que não tem segredos de Estado para vender a países inimigos.

Snowden terá mesmo deixado intencionalmente uma pegada digital para que os Estados Unidos percebessem a que documentos teve acesso. “Eu sabia que eles iam ter dificuldades em segui-la, mas nunca pensei que fossem completamente incapazes”, lamenta.

“Acho que eles pensam que há aí uma informação bombástica qualquer que equivalerá a uma sentença de morte política para eles”, diz, negado que essa informação exista ou que esteja nas mãos de Snowden ou dos seus associados.

No entanto, a Wired afirma que nem mesmo Snowden terá uma verdadeira noção do tipo de informação que estará contida no gigantesco volume de dados que o antigo agente da NSA roubou.

Um segundo Snowden à solta?

A publicação defende outra hipótese que poderá justificar o tremendo e provavelmente injustificado alarme de Washington em torno do caso Snowden. É que poderá haver um segundo agente rebelde à solta – ou mesmo mais. Isto porque o jornalista da Wired não conseguiu encontrar nos ficheiros de Snowden os documentos que teriam estado na origem de algumas notícias recentemente publicadas e atribuídas a fugas de informação da NSA. De resto, os trabalhos que a revista germânica Der Spiegel tem publicado sobre as actividades da NSA na Alemanha – e que causaram uma crise diplomática entre Berlim e Washington – não citam Snowden.

Snowden congratula-se com uma aparente evolução da opinião pública norte-americana face às denúncias de espionagem. “Se fizermos uma pergunta simples como se concordam com a minha decisão revelar o PRISM [um programa que permitia aos EUA acederem a dados privados dos utilizadores da Google, Microsoft e Yahoo, entre outros serviços], 55% dos norte-americanos concordam. O que é extraordinário, tendo em conta o facto de que, durante um ano, o Governo andou a dizer que eu era uma espécie de supervilão”, disse à Wired.

Um ‘geek’ a quem o 11 de Setembro mudou a vida

Na entrevista, Snowden diz não querer falar demasiado de si. Não quer afastar as atenções do público em relação à sua missão, nem parecer narcisista, nem comprometer a família. Acima de tudo, quer que as pessoas saibam que é apenas “um engenheiro e não um político”.

No entanto, ajuda a publicação a traçar um perfil. Nasceu em 1983 perto de Washington e toda a sua família trabalha para o Estado. Era um jovem promissor com um QI acima dos 145 pontos (a média é de 80 a 120 pontos). Devorava literatura clássica, sobretudo a grega, que o confrontou desde cedo com os grandes dilemas éticos da vida.

Quando o 11 de Setembro aconteceu, decidiu alistar-se nas forças armadas. Em 2004, tentou entras para as operações especiais, mas falhou os testes físicos devido a uma lesão. Acabaria por ingressar nos serviços secretos devido aos seus conhecimentos informáticos.

Na CIA, descobriu uma realidade diferente da imagem projectada pela agência – a tecnologia de que dispunha estava ultrapassada. Numa das suas primeiras missões, foi enviado para a Suíça para recolher informações sobre o sector bancário. E foi por lá que testemunhou a corrupção moral da agência. Devido ao facto dos agentes da CIA serem habitualmente promovidos com base no número de fontes que angariam, muitos acabavam por recrutar indivíduos sem valor estratégico, muitas vezes com recurso a chantagem.

A desilusão Obama

Testemunhou também a oposição dos agentes à política do então Presidente George W. Bush. Muitos estavam contra a intervenção no Iraque. “A guerra contra o terrorismo tinha entrado num período negro. Estávamos a torturar pessoas e a fazer escutas ilegais”, disse Snowden.

Foi nessa altura que ponderou pela primeira vez revelar segredos da agência, mas a eleição de Barack Obama, em 2008, fê-lo parar e esperar. Desiludiu-se: “Não só não cumpriu as suas promessas como as repudiou por completo”.

Em 2010, trocou a CIA pela NSA. A sua desilusão cresceu ao ter acesso em tempo real aos dados das missões ilegais das forças norte-americanas: raptos, tortura, escutas, eliminação de alvos civis. E ao constatar a prodigiosa capacidade da NSA de seguir e espiar qualquer cidadão através do endereço MAC dos seus telemóveis e computadores. Descobriu também a dimensão da colaboração oculta dos serviços norte-americanos com Israel, país a que eram entregues dados em bruto dos telefonemas e mensagens de cidadãos de origem árabe – “era algo extraordinário, um dos maiores abusos a que assisti”.

Outra descoberta foi a de que a NSA compilava dados sobre a utilização de sites pornográficos por parte de inimigos políticos, ficando com informação sensível para explorar “vulnerabilidades pessoais” e destruir a reputação de críticos do Governo.

Outra, a de que os EUA são responsáveis por inúmeros ataques cibernéticos contra outros países. Um destes ataques deixou a Síria sem internet em 2012 – uma revelação feita pela primeira vez nesta entrevista à Wired. Inúmeras outras acções tiveram alvos civis na China: “Andávamos a atacar universidades e hospitais e toda a infraestrutura civil em vez de alvos governamentais ou militares”.

A gota de água para Snowden chegou quando esteve a trabalhar num gigantesco projecto da NSA no Utah – um enorme repositório de capacidade praticamente ilimitada por onde passam milhões de emails, chamadas e mensagens privadas a cada segundo.

A 13 de Março de 2013, Snowden lê uma notícia que o leva a agir. James Clapper, director nacional de inteligência, afirma no Senado que a NSA não recolhe informação de cidadãos norte-americanos “conscientemente”.

“Lembro-me de comentar com os meus colegas: ‘Já viram esta m…?’”, recorda Snowden. Para sua surpresa, não obteve qualquer reacção. “Era a banalização do mal”, comenta, citando a expressão de Hannah Arendt sobre os burocratas do regime nazi.

Medo de morrer

“Se o Governo não representa os nossos interesses, cabe ao povo defender os seus próprios interesses. E a denúncia é uma ferramenta tradicional de defesa de interesses”, afirma. Dois meses depois da ida de Clapper ao Senado, Snowden pegou numa série de pen drives e fugiu para Hong Kong.

“É um passo difícil de se dar. Não só crer em algo, como crer o suficiente para se estar disposto a queimar a minha vida”, recorda.

Snowden não pensa ter sido localizado até ao momento, devido às extraordinárias medidas de segurança informática que adopta. Mas teme cometer uma falha que o denuncie: “Vou ter um deslize e vão hackar-me. Vai acontecer”.

Outro receio de Snowden é o eventual cansaço da opinião pública em relação ao caso NSA. Paradoxalmente, através da multiplicação de denúncias de práticas ilegais – uma torrente de notícias que poderá acabar por desinteressar o público. “Uma morte é uma tragédia, mas um milhão de mortes é estatística”, disse, citando Estaline.

Já a esperança de Snowden em relação à guerra que trava pela privacidade de todos reside na tecnologia, nos avanços no campo da encriptação que poderão proteger melhor as comunicações privadas.

Até à vitória final, Snowden admite novas revelações. Quais? “A questão não deve ser que revelação vem aí, mas sim o que estaremos dispostos a fazer quando a conhecermos”, responde.