Economia

Salgado esteve dois dias a ‘trabalhar’ contas do BES

O Banco de Portugal (BdP) foi informado por Ricardo Salgado a 12 de Julho, dois dias antes da entrada em funções de Vítor Bento, que o BES estava com problemas de liquidez e que seriam necessárias “medidas adicionais” para restaurar a saúde financeira da instituição. O supervisor mostrou-se favorável a um aumento de capital por privados, mas avisou que essas negociações só poderiam ser feitas pela nova equipa. 

Salgado e o administrador financeiro Amílcar Morais Pires tinham estado juntos durante dois dias a “analisar detalhadamente” as contas do banco, antes de comunicarem ao supervisor que havia problemas.

Esta troca de informações faz parte da acta do último Conselho de Administração do BES em que Salgado participou. Ocorreu num domingo, 13 de Julho, e o SOL teve acesso a esta documentação através da Conservatória do Registo Comercial de Lisboa – o mesmo método utilizado esta semana pelo escritório de advogados de Miguel Reis para divulgar uma acta do BdP que evidencia o papel decisivo do BCE no resgate do BES.

De acordo com a segunda acta agora consultada pelo SOL, a última reunião dos administradores do BES antes da saída de Salgado teve lugar às 20 horas de domingo, véspera do início de funções de Vítor Bento. Foi convocada de urgência por determinação do BdP, que queria antecipar a entrada da nova equipa.

A proposta de cooptação de Vítor Bento, João Moreira Rato e José Honório foi aprovada por unanimidade pelos presentes – mas já sem a votação de Ricardo Salgado e José Manuel Espírito Santo, ambos de saída.

Foram ainda adoptadas medidas que excluíssem a intervenção dos novos administradores nas contas semestrais – Vítor Bento exigiu uma declaração que o desresponsabilizasse desses prejuízos. Por fim, houve intervenções dos administradores.

Quando toma a palavra enquanto vice-presidente do Conselho de Administração e presidente cessante da Comissão Executiva, Ricardo Salgado deixa cair uma pequena ‘bomba’, como despedida. Depois de enaltecer o percurso do banco nos últimos anos e a equipa de gestão, informa sobre a conclusão pouco optimista resultante da análise feita com Morais Pires e Isabel Almeida, também do departamento financeiro. 

Salgado “chegou à conclusão ser importante transmitir ao BdP, por carta ontem enviada [no sábado, 12 de Julho], o seu entendimento quanto à necessidade imperativa de adopção de medidas adicionais ao plano de contingência de liquidez em vigor no BES”.
Estas medidas, acrescenta a acta, “apenas se poderão consubstanciar em contribuições privadas, envolvendo parcerias estratégicas e/ou financeiras que não se traduzam em apoio do Estado”.

A resposta dada pelo governador do BdP, Carlos Costa, à carta de Ricardo Salgado, foi lida pelo próprio durante a reunião de domingo dos administradores do BES e é “favorável a soluções de aumento de capital que venham acompanhadas do reforço da estrutura accionista”, mas com condições. Em primeiro lugar, o supervisor avisa preferir uma solução que mereça o consenso dos principais accionistas do banco. Por outro lado, lembra que qualquer proposta para aquisição de participação qualificada tem de ser avaliada pelo BdP, de forma a verificar se “o proposto adquirente reúne condições que garantam uma gestão sã e prudente da instituição”.

Por último, avisa que “os contactos e negociações com entidades terceiras tendo esse fito em vista devem ser realizados pela Comissão Executiva do BES após cooptação dos novos membros entretanto ocorrida”.

Esta acta do BES, depositada na conservatória a 6 de Agosto, contém assim novos elementos que ajudam a perceber como a situação financeira do banco se deteriorou. Uma das razões invocadas pelo BdP para intervir no BES foi um prejuízo superior ao estimado, alegadamente por práticas de gestão danosa por administradores cessantes que ainda estavam em funções na primeira quinzena de Julho.

Quando, a 12 de Julho, o governador recebeu a indicação de Salgado de que havia problemas nas contas, mesmo depois do aumento de capital concluído em Junho, ainda não se sabia que dias antes haviam sido feitas operações bancárias que penalizaram ainda mais os resultados.

Salgado elogiado pela administração

Apesar da situação delicada em que Salgado e os seus colaboradores mais próximos na comissão executiva deixaram o BES, a acta mostra que parte considerável do Conselho de Administração (CA) do banco teve palavras simpáticas na hora da despedida.

O presidente do CA, Alberto Oliveira Pinto, destacou a “dinâmica” que Salgado imprimiu ao banco, “colocando esta instituição numa posição de grande relevo a nível internacional e no quadro do nosso sistema financeiro”.

O administrador Xavier Musca disse ter “consciência sobre quão difíceis” eram as circunstâncias de Salgado e da família Espírito Santo, dando um “voto de confiança em que, com o empenho de todos, será possível ultrapassar as sérias dificuldades actuais”.

A administradora Rita Amaral Cabral manifestou uma “honra acrescida em ter tido como presidente da comissão executiva o Senhor Dr. Ricardo Espírito Santo Silva Salgado”.

joao.madeira@pt