Vida

Mercados do Algarve: a vida em época alta

O bife de atum, servido de cebolada e acompanhado de batata frita ou cozida, era há umas décadas um dos pratos favoritos das mesas algarvias. Sem espinhas, de cor acastanhada, enganava os miúdos com a indefinição de não se perceber se era carne ou peixe. Mais difícil seriam os carapaus alimados, outro clássico das casas mais pobres, que os tempos actuais classificam como petisco gourmet, ou as caldeiradas, receita módica para alimentar muitas bocas.

A banca de Paula Pereira, no novo Mercado Municipal de Portimão, aberto em 2007, está repleta de lombos de atum, a 17 euros o quilo, vindos dos Açores (a pouca captura que é feita no Algarve vai para fora ou para os restaurantes de sushi de Lisboa). Muito do que Paula vende vai para a restauração. Os clientes, se antes compravam dois bifes, agora compram um e dividem, acrescentando mais batata. E os miúdos algarvios, entretanto, mudaram-se para outras dietas: são enganados com fish nuggetts. “Sente-se a crise e de que maneira!”, diz Paula. Ainda assim, o negócio “vai dando para alimentar a família toda”. Nesta banca trabalham também o marido, a filha e o genro.

Dyowe Lot, um holandês de 39 anos com sotaque algarvio, abriu a sua Peixaria Sagres no novo Mercado de Portimão, depois de ter deixado o trabalho na restauração. A sua banca tem sobretudo marisco chamativo e peixe nobre. É irmão do campeão mundial de pesca submarina - Jody Lot - e foi a pesca submarina, que também pratica, que o levou até ao mercado. “Via que as pessoas estavam interessadas nas minhas capturas”. Mas nota que o negócio do peixe vai piorando. “O Algarve é muito sazonal, mas a época de ganhar dinheiro tem vindo a diminuir. Já foram quatro meses e acho que este ano não chega a mês e meio”. Os dois filhos, de quatro e nove anos, são para já maus clientes. “Só gostam de filetes e douradinhos e gostam de ir ao McDonald's”, confessa. Alimenta no entanto a esperança de que “um dia vão acabar por perceber o que é bom”. A conversão das gerações mais novas é um sonho que paira no ar.

Júlio Nascimento, que vende peixe há mais de 20 anos, e também trabalha com o filho de 29 anos na sua banca, sustenta que “as pessoas querem comprar e não podem. E em Portimão ainda há uma tradição de as pessoas virem ao mercado comprar peixe!”. Mas isso são os mais antigos. “Os novos querem mais fast food e take away”.

Júlio defende-se como pode da fuga dos consumidores: “Vou à lota, de Portimão ou de Lagos, esperar que toda a gente compre e quando baixa para o preço que eu quero aí é que compro”, explica. Por isso não tem espécimes de encher o olho, mas vende carapau “bonito e fresco” a dois euros e 'polvo ratado', animais a que as moreias caçaram um tentáculo e que não ficam apelativos, mas que na panela sabem ao mesmo e aliviam a carteira. O polvo não ultrapassa os três euros o quilo. E em vez de garoupa, vende garoupinhas a 12 euros, que a população mais envelhecida dos mercados tem hipóteses de comprar.

Mesmo com um negócio dirigido a um 'consumo de massas', na medida do possível, e concorrencial com os congelados do supermercado, Júlio queixa-se das condições desleais no Mercado de Portimão. “Estou desconfiado que é o único mercado no país em que os vendedores pagam a água: 1,28 euros o metro cúbico”. O aluguer do espaço, o gelo e a água engrossam a alínea dos custos, diz, para os 200 euros mensais. “A empresa que gere isto é a Urbis, que tem também o Arena e autódromo e está a dar o berro, como toda a gente sabe”, critica.

No pavilhão das frutas e legumes, Célia Gouveia tem a banca mais bem posicionada: logo à entrada, perto de um estaminé onde a empresa Solfie alicia reformados para um diagnóstico quântico. O que dá logo a indicação que a clientela da zona é antiga.

Célia mostra que foi capa da Eco 123, Revista de Economia e Ecologia. Com 53 anos, trabalha há 39 anos a vender fruta e legumes, e a sua presença na revista deve-se muito ao gosto com que arranja a banca e à sua boa disposição. “Tentamos fazer tudo para o cliente ter gosto em vir aqui”. Na sexta-feira da semana passada o movimento era intenso. “Mas só se trabalha à sexta e ao sábado. Se tivesse vindo cá ontem via que isto estava morto”, desabafa.

O novo Mercado de Portimão optou por uma estratégia inclusiva. No velho, os produtores ficavam fora de portas, à chuva e ao sol, neste há umas banquinhas em ripas de madeira. Nídia Pires, que semeia a terra com o marido na Mexilhoeira Grande (aldeia que o restaurante Vila Lisa tornou nacionalmente famoso) vem regularmente trazer os seus hortícolas: cenouras com rama, bojudas e sem forma, diferentes das que se encontram nos sacos de plástico, batatas fora de formato...Vem duas ou três vezes por semana, mas se fizer as contas ao gasóleo da deslocação, mais aos 11 euros por dia do aluguer da banca, nem sempre compensa. Do agricultor directamente ao cliente, as compras ficam mais baratas, mesmo que a fruta não apresente o aspecto certinho e polido das bancas 'oficiais'.

Pequeno êxodo

O Mercado do Peixe de Quarteira, que tem há anos reputação de ser um dos sítios onde se compra o peixe mais nobre da orla costeira algarvia - por abastecer os restaurantes caros da zona entre Vilamoura e Quinta do Lago - é, porém, um dos mais acanhados.

 Belinha Coelho vive zangada: “Isto é uma vacaria, não tem condições nenhumas. Acha isto bonito, com 24 luzes em cima do peixe, o que nos obriga a gastar uma fortuna em gelo?”. Sexta-feira, dia 1 de Agosto, que no calendário marca oficialmente o êxodo dos turistas para o Sul, os compradores apinhavam-se nos corredores estreitos junto a bancadas coladas umas às outras. “Lavaram a cara, fizeram uma maquilhagem a isto. Este mercado deixa muito a desejar. Loulé não tem um terço do que nós temos e tem muito mais condições”, diz Belinha Coelho, que denuncia ainda a existência de um “mercado da candonga”, no antigo bairro dos pescadores, onde “os toxicodependentes vendem peixe a céu aberto”. Se a polícia vai lá, eles voltam meia-hora depois, acusa.

Mas há outros motivos para o negócio não correr bem. Carlos Sousa, empregado do Onda Éden, trabalha há 20 anos em Quarteira. “Esperava que este ano fosse melhor mas isso não está a acontecer. Há uma grande baixa de movimento e isso nota-se desde as sete da manhã”. Mesmo assim, Carlos gosta de exibir o seu peixe graúdo e salienta que “os clientes portugueses desapareceram. É a restauração que equilibra o negócio”. Aparecendo por volta das 10h30, o conhecido Gigi, do restaurante de praia da Quinta do Lago, é um dos seus clientes: “Compra a mim e a outros, só peixe fresquíssimo”.

Carla Ramos, com uma banca de bivalves, defende a teoria que a fuga de clientes, que fez de Julho um mês muito fraco, se deve em parte ao Mundial de futebol: “Muita gente foi passar férias ao Brasil e agora não vem para o Algarve”

Alda Pais, que nitidamente se diverte com o seu boné, com o boneco de um peixe incrustado, sustenta que é ao domingo que se faz negócio em Quarteira. E orgulha-se de não vender gato por lebre. “Se o peixe é de aquicultura está identificado como tal”. A gestão do negócio, tal como é muito vulgar no Algarve, passou agora para o filho, Luís, com 23 anos. Apesar dos contratempos, o ambiente é de festa e Glória Pardal, auto-intitulada 'mestre das caldeiradas', dispara uma rima onde exalta o peixe que vende, terminando com uma brejeirice própria do Bolhão. “Isto até está no Youtube”, orgulha-se.

Banca low cost

No grande pavilhão de peixe do belíssimo Mercado de Olhão, junto à Ria, João Próspero apresenta-se como “provavelmente o mais velho daqui”. Gaba-se de “a respeito de peixe ninguém conhecer o que eu conheço”. Aos sete anos andava a pedir pela baixa de Olhão com o avô ceguinho. “Depois um senhor pegou em mim e levou-me para a pesca”, recorda. Fez a vida militar lá fora e há 30 anos que está nesta actividade de que gosta muito, apesar de dizer que “o negócio está mau”, estimando em 30 a 40% a quebra de clientela. A sardinha, mesmo a dez euros, é a heroína da estação, apesar de João Próspero recomendar um carapau negrão, ou azul, “belíssimo na grelha”, que se vende por quatro. “É uma questão de fama”, diz, antevendo que “a cavala começa também a ter a sua famazita”.

No meio da azáfama, há uma banca que se destaca pelos seus peixes invulgares e preços muito reduzidos. Andreia Cabrita, de 30 anos, que trabalha com o pai no mercado desde que fez 20, é dona de uma certeza também rara: “Adoro o meu trabalho, se me dissessem para fazer outra coisa não faria, pode ter a certeza”. E arrisca, pedindo confirmação: “E não tenho cara de peixeira pois não!? É que quando digo o que faço, na rua, as pessoas ficam admiradas”. A origem da felicidade laboral está no 'conceito' do negócio. Para um consumidor de hipermercado, a banca de Andreia parece feita de peixes alienígenas. Para ela e para quem sabe, o que está exposto é peixe saborosíssimo, que a falta de 'marketing' leva a que as lotas o vendam muito barato. Há o rascasso, muito bom para fritar, o peixe-aranha (aquele que parece servir apenas para picar os pés dos veraneantes), o peixe-galo e a xaputa, dos quais se fazem excelentes filetes, o polvo cabeçudo, uma espécie anã, “mas tão bom como o outro”, que se vende a quatro euros, as cartas, que fritas são melhores que os linguados, o peixe-agulha...

“Ao meio-dia isto está tudo vendido”, explica Andreia, que se orgulha de ter clientes fixos que sabem comprar bom e barato e que não vão em modas mesmo no que diz respeito a pescados. Na zona mais 'luxuosa' da banca há raia e pescada a três euros e tamboril a quatro. O negócio vai de vento em popa: “E é melhor ainda no Inverno, porque o meu peixe é muito para cozer, fritar e caldeirada, e no Verão as pessoas gostam de grelhar”. O lucro vem de vender barato. “Perderíamos dinheiro se houvesse aqui peixe caro, as pessoas não pegavam porque sabem identificar o tipo de comércio de cada banca”.

Mais barato que no hiper

Tânia Campos, uma professora contratada de 35 anos, está aqui a fazer as suas compras de peixe para a semana. Também ela é um caso raro, uma vez que a população maioritária dos mercados é de uma faixa etária bem mais elevada.

Mas Tânia desloca-se regularmente ao mercado de Olhão, onde a oferta é mais variada e mais em conta. Diz que aprendeu com a experiência de circular pelo país inteiro que “comprar nos mercados é mais barato do que nas grandes superfícies”. E com grande vantagem de gosto e qualidade, salienta.

“Falo sempre com os vendedores sobre o que devo comprar e como devo cozinhar e bate sempre certo. Não há que ter vergonha de perguntar, porque são pessoas muito experientes”, aconselha. Todas as semanas compra para a família - onde se inclui um miúdo de cinco anos que prefere o peixe verdadeiro ao aglomerado de que são feitos os douradinhos - cerca de 30 euros em pescado que rendem pelo menos cinco refeições.

A paisagem da Ria Formosa fornece o belo enquadramento para o mercado de rua repleto de agricultores que vendem os seus produtos debaixo de chapéus de sol. Fábio Sousa, de 30 anos, habituou-se, desde os 20, a acompanhar os avós, pequenos agricultores de Bela Mandil, uma freguesia perto de Olhão.

É barbeiro em Faro e folga de manhã, trabalhando à tarde, para “ter o privilégio de estar aqui”. E explica: “Nós e os clientes vimos para aqui porque isto é uma festa e há pessoas que percebem que os agricultores respeitam a época dos produtos que saem da terra”. Nas feiras de pequenos produtores não há morangos em Janeiro.

O mercado dos turistas

O Mercado de Loulé, remodelado há meia dúzia de anos, tornou-se um ex-líbris recomendado por guias turísticos e, aos sábados de manhã, enche-se de estrangeiros vestidos para a praia. É um edifício neo-árabe, super-fotogénico, onde os turistas mostram aos filhos as espécies hortícolas e do mar que não estão dentro de embalagens com o selo de uma marca. É um passeio para muitos, que também não resistem a comprar.

Paulina Logchies, holandesa dona de uma empresa de construção, a passar férias em Vilamoura, visita o mercado de Loulé de cada vez que faz férias na zona. Embora se intitule uma convenient shopper, que prefere ir ao supermercado de forma a resolver a preguiça de várias deslocações para encher a despensa, aprecia o colorido de um mercado cheio de aromas. Sarah Brady, uma inglesa, descobre com a família o mercado e compra tomate, pepino, alface e pão. “Lovely” (encantador), resume.

“Agosto é a época do turista que compra, o Inverno é a altura do turista que só fotografa”, refere Filipa Galvão, de 23 anos, vendedora nos Mariscos Galvão. Filipa trabalha nas manhãs de terça a sábado em Loulé e domingos e segundas em Quarteira, num negócio de família com mais de 100 anos: “Já vem desde o meu trisavô”, orgulha-se.

Filipa está ainda a estagiar como assistente de veterinária no parque aquático Acqua Show, em Quarteira, mas confessa: “Tenho isto sempre garantido”. E para ela a crise quase não se nota: “Os clientes do camarão tigre nunca nos faltam”. Nem os dos bivalves e os do camarão da costa. À hora de fecho do mercado a banca está limpa. 

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