Opiniao

Salvar os professores deveria ser um imperativo

Em todos os regimes, incluindo nas múltiplas formas de democracia, a contra-informação é um instrumento utilizado. Se não fosse eficaz seria menos usada, mas a tentação é grande e poucos têm pruridos morais na sua prática. Nada existe de tão volátil como a opinião pública, o que torna a equação aparentemente simples: quem a controla dispõe de uma vantagem, quem nela se afunda pode perder o pé e não o voltar a ter. 

E em matérias essenciais, como a Educação, de tanto combate sem quartel poucos se lembram do que está em jogo para lá da sobrevivência. O que sucedeu com a prova dos professores provou-o mais uma vez: nem o ministro da Educação resistiu à tentação de desacreditar uma classe já tão maltratada nem os sindicalistas ousaram ter uma resposta e um discurso que não fosse apenas corporativo, defensivo. Já lá vou. 

Falo muito da liberdade e mais uma vez vou fazê-lo. É que quando alguém me diz que a liberdade se mede pela soma das liberdades individuais, não resisto a voltar ao assunto. Porque é exactamente o contrário, a liberdade é a soma das abdicações que individualmente estivermos dispostos a fazer.

A construção de um país, de uma sociedade ou civilização justa faz-se da capacidade de sacrificarmos uma parte da nossa liberdade para que todos possamos ser livres em conjunto. Os homens e mulheres que tudo fazem, sem qualquer constrangimento, ao contrário do que se possa pensar, estão longe de ser livres. São escravos numa cela onde cabe apenas um só. Os homens e mulheres livres são os que vivem solidários entre si, os que respeitam o Estado por nele acreditarem e por serem a emanação de um respirar colectivo. É por isso que não somos livres, exactamente por isso, não pelos motivos que tantas vezes avançamos. Não existe respeito pelo Estado. E este, a começar pelos governantes, faz pouco para inverter a tendência de uma amoralidade que tem deitado tanto a perder. 

Isto a pretexto da divulgação dos erros ortográficos dos professores na prova de avaliação. Um absoluto caos ao que se sabe. Apenas 37,2 por cento dos docentes não deram, pelo menos, um erro ortográfico e 14,8 foram capazes de dar cinco ou mais erros.

O ministro Nuno Crato não perdeu a oportunidade. Divulgou a calamidade e ganhou pontos na opinião pública. Como Salazar fez ao divulgar sibilinamente a carta do Bispo do Porto, obrigando-o a um longo exílio. Ou, nos dias que correm, quando observamos uma sucessão de notícias sobre a Misericórdia justamente no momento em que Pedro Santana Lopes decidiu (é mais forte do que ele) ser pré-candidato à Presidência da República; ou a publicação de notícias de contas mal explicadas na Câmara de Lisboa (assunto levantado por um militante socialista) no instante em que António Costa ameaça António José Seguro. Nenhum dos assuntos tem relação, todos são um sintoma. Não se descredibilizam adversários sem os tentar destruir mediaticamente. 

Em relação aos docentes o assunto é bem mais grave. Porque Nuno Crato, que tem destruído os alicerces da investigação científica em Portugal, arrisca-se agora a destruir o que resta da credibilidade dos professores. E é importante que se diga o óbvio: não existe futuro sem professores dignificados, sem a capacidade de o Estado assegurar que os nossos filhos e netos possam desempenhar um papel pelo país em que nasceram. 

Defendo que os professores maus possam sobreviver indefinidamente? Não posso defender o indefensável. Os professores devem ser avaliados com critério para que os tantos que são bons não sejam prejudicados pelos que não merecem desempenhar a mais extraordinária profissão a que se pode ambicionar. 

Até porque a facilidade é inimiga do que se quer grande. Se um alpinista deseja o Olimpo não escalará pequenas montanhas; se um pensador ousar abrir um novo livro à existência humana não adaptará o que leu; se um dançarino quiser a perfeição terá de se sacrificar o que for preciso; se o amor for uma ambição só será realmente reconhecido se existirem derrotas e contratempos. Uma vitória sabe a pouco quando não há luta, quando não há combate, quando não nos pomos em causa, quando não arriscamos ser vencidos. 

Devemos separar as águas, o trigo do joio, os professores merecem que se faça isso. Mas nada disso se fará sem parar para pensar. O que se deseja? Que critérios existem? Como restaurar a dignidade aos que ensinam, às escolas e, por consequência, ao próprio Estado? E do outro lado da barricada existir também o esforço (mais difícil ainda) de reconhecer que o estatuto dos professores só sairá dignificado sem um corporativismo no pior dos sentidos, desfasado do tempo, bacoco, reaccionário. 

Nuno Crato fez o mais simples. Divulgou os resultados para poder sobreviver politicamente. Recordo-me de uma conversa em A Lista de Schindler, de Steven Spielberg. Uma conversa em que Schindler explica ao monstro Amon Goeth que ter Poder não é matar mas precisamente o contrário: não o fazer sabendo que o poderia sem consequências. O fácil raramente é o melhor. 

O ministro, e os que lhe estão próximos, não o soube fazer. Não teve essa grandeza. De guardar os resultados para si e de fazer com eles o que devia ser feito. Sem com isso maltratar quem jamais poderá ser maltratado enquanto classe profissional. Isto é o essencial em qualquer dimensão que se deseje do problema. A reabilitação do professor não se fará com truques que ganham a opinião a pública mas perdem o futuro e a decência a que o Estado se deveria obrigar.