Vida

Marcantónio del Carlo: 'Qualquer dia todos podemos estar a passar por isto'

Um ragu foi a receita escolhida por Marcantónio del Carlo para a noite em que assumiu os comandos do fogão do Abrigo Nocturno da Graça, em Lisboa, gerido pela AMI. A influência italiana ajudou na escolha da ementa. “O ragu é um prato original de Bolonha, no qual se faz um refogado de tomate para a carne picada e normalmente não leva mais nada. Neste caso juntei queijo fundido, orégãos, manjericão e começámos com uma bruschetta improvisada. Foi muito interessante”. Para o actor, o mais importante era evitar o discurso do “'coitadinhos, venho aqui dar-vos uma força' ou um momento 'Muro das Lamentações'. Jantámos todos juntos, conversámos e foi um respirar fundo, se calhar uns minutos em que as pessoas pensaram, talvez, em futilidades e não nos seus próprios dramas”.

Foto: Miguel Silva/SOL
Foto: Miguel Silva/SOL
O jantar foi um prato tipicamente italiano: Ragu Foto: Miguel Silva/SOL

Desde 1997, o Abrigo da Graça (que tem uma limitação máxima de 17 utentes) já deu apoio a 711 pessoas, número a que acrescem, as 308 pessoas apoiadas pelo abrigo congénere do Porto. “E são pessoas como eu! Como nós estamos neste momento e na direcção para onde estamos a caminhar, há pessoas que até ontem tinham emprego. Estive a falar com um senhor de 50 anos - praticamente a minha idade - que tinha um trabalho de 20 anos numa empresa, uma vida feita e, de repente, fechou tudo e ele viu-se com 50 anos e sem nada. Ora isto são verdadeiros dramas humanos”, admite o actor, que não é novato nestas andanças e vai continuar a ajudar este abrigo. Aliás, o convite surgiu na sequência de “algumas participações que faço ao nível deste trabalho de solidariedade e de assistência social, que na verdade não é trabalho, é uma contribuição que acho que todos  devíamos dar. 

As pessoas que têm alguma projecção pública devem emprestar a sua imagem a este tipo de iniciativas”, realçou. No entanto, admite que é um esforço um pouco inglório: “Somos uma pequena gota de água num oceano. Seria muito bom que não houvesse necessidade deste tipo de acções. E disse isto mesmo à responsável pela AMI quando me perguntou se tinha gostado. Disse-lhe que gostar não gosto, porque o que gostava mesmo é que não houvesse esta necessidade. Mas sinto-me muito bem por poder ajudar. São situações que todas as pessoas deviam conhecer não só através dos media mas na primeira pessoa, ajudando quem mais precisa, saindo da sua zona de conforto e disponibilizando o seu tempo para o outro”.

Desde 1997 que os Abrigos da AMI apoiaram 1.019 sem-abrigo a encontrarem emprego. E, no âmbito do Programa Comunitário de Ajuda Alimentar a Carenciados, desde 2002 já distribuiram perto de oito mil toneladas de alimentos, apoiando directamente mais de seis mil pessoas e, indirectamente, perto de 20 mil beneficiárias de outras instituições.

Uma tradição internacional

Segundo um estudo feito pela E-Poll Market Research no final de 2013, lá fora são muitas as estrelas do mundo da música, do cinema e da televisão que ajudam várias instituições de solidariedade social, seja através da sua imagem (credibilizando determinadas organizações), seja através de doações chorudas ou até do seu trabalho. De acordo com os resultados do inquérito, no topo dessa lista surge Elton John, envolvido pessoalmente com mais de 40 instituições, seguindo-se Angelina Jolie, Bono e Oprah Winfrey. A lista inclui ainda nomes como Ellen DeGeneres, Michael J. Fox, Brad Pitt, Susan Sarandon, George Clooney e Paul McCartney, só para mencionar o top 10 dos mais generosos.

Para o actor português,  “ajudar não é baixar o vidro do carro para dar uma moeda. Ajudar é acima de tudo não ignorarmos. Em cidades grandes como Lisboa estamos a chegar ao limite em que fazemos de conta que aquilo não existe. Em Nova Iorque morrem pessoas na rua e ninguém liga. E isso é o pior de tudo. Temos de ter a noção de que a pobreza existe, está lá e está muito próxima, por isso não vale a pena fazer de conta que não é nada connosco”.

patricia.cintra@sol.pt