Cultura

Joaquim Pinto: 'Estamos todos doentes'

Vinte anos com VIH e Hepatite C e depois de dois ensaios clínicos falhados para este último, Joaquim Pinto filmou-se durante a terceira tentativa para travar a doença hepática. O tratamento e a rodagem começaram em Novembro de 2011. Ao fim de um ano, o realizador, técnico de som e produtor nascido no Porto não só tinha sobrevivido para contar a história - dele, do marido Nuno Leonel e dos quatros cães com quem habitam na aldeia da Columbeira, Bombarral - como preparava-se para um circuito surpreendente de festivais de cinema. 

Além da estreia, entre 2 e 6 de Setembro a Cinemateca Portuguesa dedica uma retrospectiva aos filmes a solo e a dois do casal, entre os quais O Novo Testamento de Jesus Cristo Segundo João, estreado no IndieLisboa, e Uma Pedra no Bolso, a primeira longa de Pinto que já ali passara e por ocasião do qual dissera não saber falar de filmes. “Falamos de vidas”. Na entrevista por Skype, como no filme, Nuno Leonel resiste em participar - mas sem sucesso.

É inevitável a pergunta: como se sente?

O tratamento para a hepatite C em Madrid ficou concluído e agora sou seguido cá. Foi eficaz porque parou a degradação do fígado. Com altos e baixos, sinto-me melhor (sorri).

Porque decidiu filmar depois de quase dez anos sem o fazer?

Os vírus VHC e VIH quase desapareceram dos media. Percebi também que já não havia filmes sobre o tema tratados na primeira pessoa, por receio de discriminação. Tinha de dar a cara, além de querer documentar desde o início um processo onde não sabia muito bem o que poderia acontecer.

Sentiu que podia ser uma mensagem de despedida?

Quis que o filme fosse uma metáfora de uma situação mais vasta: estamos todos doentes enquanto sociedade. Basta pensar na carga de produtos químicos e aditivos que consumimos ou na forma como estamos anestesiados em relação aos actuais conflitos de guerra. Se há um tom de despedida? Estou seropositivo há muitos anos, tendo momentos em que os medicamentos deixam de funcionar. Qualquer situação que nos põe perante a possibilidade de as coisas não funcionarem coloca-nos a questão da existência.

Estão previstas sessões dirigidas a pessoas em situação clínica semelhante?

Em princípio, sim, em colaboração com o GAT (Grupo Português de Activistas sobre Tratamentos de VIH/sida). Em Portugal há mais pessoas afectadas com a hepatite C do que com o vírus VIH. É um problema grave entre os que fizeram a guerra colonial, por causa de vacinações e transfusões de sangue. Numa primeira fase provoca fibrose do fígado, depois cirrose e em fase avançada cancro. Como a progressão é lenta e o processo silencioso, muitos acabam por descobri-lo já numa fase muito adiantada. O VIH acelera o processo, por causa dos medicamentos.

No filme recorda vários amigos da comunidade artística que morreram com sida nos anos 80.

Toda a minha juventude foi num tempo em que ainda não se falava do assunto. Quando percebeu tudo o que implicariam os tratamentos ainda pouco eficazes da altura, o Serge Daney (crítico de cinema) teve a coragem de se despedir dos amigos e partir. O actor Kurt Raab, que entra nos filmes do Fassbinder e morreu em 88, era de uma localidade pequena na Alemanha onde recusaram-se a sepultá-lo, tal era o pânico em relação ao VIH.

Quando adoeceu, o Nuno era das poucas pessoas que o visitava e percebemos que se juntaram deste então.

Tínhamos uma amizade muito forte, com mais de 25 anos. O Nuno trabalhava num estúdio de animação e já o conhecia antes da rodagem do meu primeiro filme. O que posso dizer é que se não fosse ele eu não estava aqui. Tinha-me perdido pelo caminho.

O Nuno não queria participar no filme e, no entanto acaba por fazê-lo.

Foi uma decisão dele. Se tiver convicção para o fazer faz, seja plantar árvores ou fazer filmes.

O Nuno não gosta de dar entrevistas?

'Não!', respondeu ele (Risos. Nuno aparece ao lado de Joaquim).

Nuno Leonel: Mas posso dar boa noite.

Perguntava ao Joaquim por que acabou por se envolver no filme.

NL: Quando em 2007 voltámos dos Açores para o continente não queria que isso fosse um regresso ao meio do cinema. Já não tinha as mesmas forças para continuar a ser bombeiro, que era o que gostava de fazer, e a partir do momento em que meti na cabeça que ia tratar de um terreno e cuidar do Joaquim, eram essas as minhas prioridades. Fazer um filme ia-me tirar tempo para ele, para os cães e para o terreno. Como pôde ver, sou eu quem lhe dá as injecções. No início ainda tentámos ter uma equipa, alguém no som, outro na câmara, mas não conseguimos passar-lhes a importância que era fazer o filme. Vi o Joaquim muito sozinho e de um dia para o outro decidi que ia participar. Não é que eu seja tímido, mas o tema envolvia a nossa vida particular... Era ou sim ou sopas. E foi sim.

Cita Ruy Belo: 'É muito triste andar por dentro de Deus ausente'. E no entanto, o filme mostra uma enorme vontade de viver.

No início do filme estava mais próximo do poema do Ruy Belo do que no final. O Nuno não está aqui agora, foi novamente lá para dentro, mas nós tínhamos discussões muito acesas sobre as nossas posições em relação a Deus. No início eu estava agarrado a uma espécie de ateísmo, o Nuno nos antípodas. O filme aproximou-nos.