Internacional

Marina escolheu Dilma como adversária e elogiou competência de Lula

Marina Silva, embalada pela sondagem do Ibope para o Estado de São Paulo e Rede Globo, publicada ontem, que lhe dá uma vitória numa segunda volta disputado com Dilma Rousseff, elegeu como adversária para o debate de ontem à noite na Bandeirantes (o primeiro da campanha presidencial) a ainda Presidente do Brasil e candidata do Partido dos Trabalhadores (PT). Mas a sucessora de Lula preferiu não atacar a candidata do Partido Socialista Brasileiro (PSB) e usou as duas horas de debate para recordar e mostrar a obra feita em quase quatro anos de liderança e para afastar responsabilidades do seu governo na desaceleração do crescimento económico e na subida da inflação.


Ao longo do debate, o guião dos três principais candidatos não surpreendeu. Marina usou e abusou dos argumentos que a colocam como candidata para uma terceira via na governação brasileira: elogiou a competência de Lula no combate à pobreza e a competência de Fernando Henrique Cardoso na estabilização da economia brasileira. Admitiu formar governo com os melhores quadros do PT e do PSDB “que estão na reserva”, mas não deixou de sinalizar as críticas à governação dos dois partidos que estão no poder há 20 anos.

No confronto directo de candidatos, Marina questionou Dilma sobre o que correu mal nos cinco pactos que a Presidente apresentou para os sectores da Saúde e da Educação, por exemplo, depois dos protestos de Junho do ano passado que levaram milhares de brasileiros para as ruas. Na resposta, Rousseff notou que nada correu mal e lembrou o programa Mais Médicos, a implementação de escolas em tempo integral, o controlo da inflação, as melhorias na mobilidade urbana e a reforma política, que não foi aprovada. “Para resolver problemas, precisamos reconhecer que eles existem. Esse Brasil colorido descrito por Dilma, quase cinematográfico, não existe”, replicou a ambientalista. 

Dilma Rousseff, por sua vez, optou por dirigir a sua primeira pergunta para Aécio Neves, do PSDB. Começou por recordar que o Brasil está hoje melhor do que estava há 12 anos, numa referência ao mandato do antecessor de Lula, o ex-Presidente Fernando Henrique Cardoso. Neste quadro, questionou Aécio sobre as medidas impopulares que o candidato do PSDB tomará se vier a formar governo. Aécio percebeu a provocação e deixou a resposta: “Em primeiro lugar, sinto-me lisonjeado toda a vez que a candidata olha para o ex-Presidente Fernando Henrique. Eu tenho dito, de forma extremamente clara, que estamos preparados para fazer o Brasil voltar a crescer”. 

E acrescentou: “No governo da senhora, a indústria brasileira foi sucateira. É preciso que a senhora reconheça que um país que não cresce não gera empregos. O Governo PT surfou nas reformas feitas no governo Fernando Henrique Cardoso. Mas a bendita herança acabou”. O social-democrata não ficou sem resposta já que Dilma recordou que o PSDB “quebrou o Brasil três vezes”, uma das quais com o pedido de ajuda ao FMI, afirmando ainda que “em três anos e oito meses estou gerando mais empregos do que vocês geraram em oito anos”. 

Aécio Neves, para fechar o seu direito a réplica, relembrou a carta escrita por Rousseff ao ex-Presidente Fernando Henrique Cardoso através da qual felicitava a estabilidade económica herdada pelo seu governo quando tomou posse na sequência das eleições de 2010. O confronto entre Dilma e Aécio viria contudo a subir de tom mais para o final de debate quando foi introduzida a questão da Petrobrás, a petrolífera brasileira, com o candidato social-democrata a acusar a Presidente do Brasil de “leviandade”. “Não é hora de pedir desculpas sobre a sua gestão temerária em relação à Petrobrás?”, questionou o candidato. 

“Hoje, a Petrobrás é a maior empresa da América Latina. Em três anos estamos tirando 540 mil barris por dia. Nós concedemos à Petrobrás um volume de reservas para que ela se transforme em uma das maiores empresas de petróleo do mundo. Não fomos nós que queríamos mudar o nome da Petrobrás para Petrobráx, que soava melhor aos ouvidos estrangeiros”, contestou Dilma. “É uma leviandade a forma como a Petrobrás vem sendo tratada. Um colega seu está preso hoje, as denúncias carregam para esquemas de favorecimentos”, insistiu Aécio Neves. “Repito que é uma leviandade tratar a Petrobrás dessa forma. Quem investiga a Petrobrás hoje é a Polícia Federal, doa a quem doer. A minha luta hoje é contra a corrupção”, devolveu a Presidente do Brasil. 

Mas o candidato do PSDB começou o debate por ensaiar uma ofensiva a Marina Silva para então depois redireccionar o ataque para Dilma. Logo a abrir o debate presidencial, Aécio questionou a “coerência” da candidata do PSB, substituta de Eduardo Campos na liderança da coligação “Unidos pelo Brasil”, que já disse que não vai apoiar as candidaturas aos governos estaduais que resultam de acordos fechados pelo seu antecessor. “Sinto-me interinamente coerente com a renovação da política e com o meu compromisso de mudar a realidade política brasileira”, respondeu Marina Silva. 

ricardo.rego@sol.pt

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