Ralações públicas

É fim de tarde de Verão numa cidade qualquer que receba boas quantidades de turistas. O bafo quente que paira no ar e torra os últimos centímetros das pernas inchadas e cansadas de um dia de passeio exaustivo sob a alçada do sol de Agosto não ajuda nada a clarificar ideias. 

Vêem-se grupos de pessoas menos viçosas, que caminham na mesma direcção, unidos apenas pela chave do quarto de hotel ou da porta do apartamento onde já só querem chegar para tomar um banho e recarregar baterias à vez, enquanto cada um esgota o seu período máximo de ocupação da única casa de banho disponível. 
A estes grupos de pessoas chama-se ‘família’. 

Já nas habitações temporárias, e como se de uma linha de montagem se tratasse, os despachados agrupam-se arrumados num canto com os cabelos molhados penteados e as peles reluzentes pós-creme hidratante. Os que ainda não tiveram o prazer do banho do fim do dia, atiram-se desamanhados para cima do sofá, enquanto ainda se podem sujar com migalhas ou pingos de um mata-bicho frugal antes do jantar. Os que têm a sorte de estar no banho deliciam-se com os únicos momentos de solidão pura e virgem da quinzena. Quando estão todos prontos, de roupas limpas e vincadas pela memória das dobras na mala de viagem, estas alcateias organizam-se para sair em busca de alimento. E de consenso.

Dizem que quando se ama alguém, a prova derradeira é ir viver com essa pessoa. 
Mas… Quando já vivemos juntos de origem com alguém, qual é então a prova derradeira? 
Após várias observações e até mesmo experiências empíricas, diria que a prova derradeira do nosso amor pela família são os dias de férias. 

Durante o ano, a vivência familiar é frequentemente pautada pela obrigatoriedade do cumprimento de rotinas e horários, de provas, e de uma lista infindável de obrigações essenciais ao bom funcionamento do núcleo familiar. Como animais que somos, organizados numa hierarquia, o cumprimento destas obrigações dita a harmonia do convívio quotidiano. Só que depois chegam as férias, esse oásis a meio do ano em que podemos ser livres e dormir até às cinco da tarde de segunda-feira, passar três dias sem tomar banho ou esquecer de ter de fazer o jantar. Em que podemos andar de chinelos para todo o lado e ir ao pão de pijama. São os dias mais gloriosos do ano. 

As férias. Aquela interrupção longa no trabalho, destinada ao descanso dos guerreiros. 
Mas será que ‘família’ combina com ‘férias’? 

Há uns finais de tarde atrás, estava sentada numa esplanada muito turística, numa cidade muito turística do país, enquanto via passar uma série de famílias de turistas de várias nacionalidades, maiores ou menores em número, vagamente desconjuntadas. Unidas pelo desejo de assentar arraiais no primeiro sítio onde houvesse comida ou pela necessidade de uns momentos de descanso, estas famílias falavam alto e gesticulavam em tom de desagrado para com os restantes membros. Estavam esbandalhadas entre si. Umas mais veementes que outras, regra geral dava para perceber que havia muita família zangada. Havia muito membro de muita família zangado com o cercear do manancial de liberdade que poderiam ter sido as férias. E pus-me a pensar sobre o que é que faria com que tanta família se zangasse tanto, com tanta coisa e de forma tão despudoradamente pública, num período que deveria ser de descontracção. 

Aquele aglomerado de gente com quem nos cruzamos todo o ano numa série de ocasiões pautadas pela obrigatoriedade de uma celebração calendarizada, seja ela o jantar ou o Natal, não partilha da noção do que serão as necessidades individuais em tempo de férias em família. Porque as férias em família são encaradas como mais uma tarefa, já que são o momento de lazer obrigatório do conjunto. 

O Amor que une as famílias pela fresca da manhã, entre o fim do pequeno-almoço e o planeamento do dia, é o mesmo que as une ao final da tarde, no entanto a volatilidade implícita no cansaço é muito mais espontânea que tudo o resto, tornando o micro-drama familiar mais real e honesto que tudo o que pode acontecer ao longo do ano. É a manifestação verdadeira de Amor puro, para mais tarde recordar nos jantares obrigatórios ao longo do ano e partilhar a verdadeira felicidade do convívio. 

joanabarrios.com