Economia

Descodificador: O que disse Draghi sobre a austeridade e porque é que importa?

As intervenções públicas de um banqueiro central são escrutinadas ao milímetro pelos investidores. Como têm o poder de definir os juros – o preço do dinheiro – e condicionar a actividade económica, qualquer palavra de um governador tem um peso determinante nas decisões dos agentes económicos. Talvez por isso, os banqueiros são muito cautelosos na forma como comunicam – por vezes a roçar o imperceptível. Na semana passada, o presidente do BCE, Mario Draghi, abriu uma excepção e, nos Estados Unidos, fez uma intervenção considerada surpreendente, que está a gerar entusiasmo nos mercados.  Mas repleta de jargão económico. Veja aqui alguns dos excertos que estão a dar que falar e o que significam:

Resposta à crise

Mario Draghi: “A única conclusão que podemos tirar com segurança, na minha opinião, é de que precisamos de acções em ambos os lados da economia: as políticas de procura agregada têm de ser acompanhadas de políticas estruturais nacionais [...] .Os riscos de ‘fazer muito pouco’ - ou seja, que o desemprego cíclico se torne estrutural - superam os de ‘fazer muito’ – pressões excessivas nos salários e preços.”

Porque é importante:  Os bancos centrais  tendem a apoiar políticas que eliminem barreiras à livre produção de bens e serviços: flexibilização do mercado de trabalho, redução de impostos e das contribuições das empresas, entre outras políticas por vezes referidas como estruturais. Com esta declaração, Draghi dá a entender que isso não é suficiente, no actual contexto europeu, e que há espaço para mais despesa pública ou estímulos ao investimento (componentes da procura agregada). Esta posição vai no sentido do que defendem os economistas de inspiração dita keynesiana, que defendem programas de estímulo à economia. Estas medidas podem ter efeitos negativos – inflação ou subida dos salários acima da produtividade – mas não fazer nada seria ainda pior, devido à manutenção do desemprego elevado.

Flexibilidade orçamental

Mario Draghi: “Seria útil para a orientação geral da política, se a política fiscal pudesse desempenhar um papel maior ao lado da política monetária, e eu acredito que há espaço para isso. [...]. A flexibilidade existente dentro das regras poderia ser usada para lidar melhor com a fraca recuperação e para abrir espaço para o custo das reformas estruturais necessárias. existe margem de manobra para alcançar uma composição mais favorável ao crescimento das políticas orçamentais. Coordenação mais forte entre as diferentes posturas fiscais nacionais devem, em princípio, permitir-nos alcançar uma posição fiscal mais favorável ao crescimento global da área do euro.”

Porque é importante: Draghi entende que a zona euro pode usar os orçamentos dos Estados-membros para estimular a recuperação económica, em paralelo com a actuação do BCE, e que as regras de cumprimento dos défices na Zona Euro podem ser menos exigentes, para ajudar o crescimento. Ao salientar o papel da coordenação entre países, Draghi dá a entender que isto não quer dizer que todos os países tenham de começar repentinamente a aumentar a despesa pública e o défice. Deverá antes significar que as políticas de austeridade em países deficitários como Portugal ou Grécia devem ser acompanhas de défices maiores em países mais folgados como a Alemanha.

Investimento público europeu

Mario Draghi: “Parece ser necessária uma acção complementar ao nível da UE para garantir tanto uma posição agregada apropriada e um grande programa de investimento público - o que é consistente com as propostas do novo presidente da Comissão Europeia.”

Porque é importante: Uma proposta que ciclicamente se ouve na Europa  é um plano de investimento a nível europeu para estimular o crescimento, uma medida que já foi utilizada noutras geografias e épocas históricas para ultrapassar períodos de forte recessão. Nos Estados Unidos, por exemplo, ficou célebre o New Deal, que tirou o país da Grande Depressão. Mario Draghi posiciona-se como um apoiante de uma medida que o novo presidente da Comissão Europeia, Jean-claude Juncker, já defendeu.

joao.madeira@sol.pt