Cultura

Chiado ganha cinema de bairro

Abriu em 1904, no Chiado, na Rua do Loreto, como a primeira sala do país destinada especificamente à exibição de filmes, da então muito incipiente indústria cinematográfica. Nos últimos anos, com o nome de Cine Paraíso, passava filmes pornográficos. Quinta-feira abriu portas, de novo com o nome original de Cinema Ideal, e com o objectivo de recuperar o há muito esquecido em Lisboa conceito de cinema de bairro com portas abertas para a rua e com um a programação alternativa à dos centros comerciais.

“É uma aposta arrojada”, reconhece Pedro Borges, responsável da Midas Filmes que, desde há cinco anos, procurava com a Casa da Imprensa (os donos de edifício) uma solução para negociar a saída dos proprietários do já muito decadente Cine Paraíso – a última sala de filmes para adultos em Lisboa –, para devolver ao local as ambições de outros tempos: “Ser um ponto de encontro, no coração da cidade, para pessoas que gostam de cinema”. “A verdade é que há uma coroa enorme no centro histórico onde não existe uma única sala. É preciso ir até ao Saldanha ou ao Centro Comercial das Amoreiras”. E isto quando, no centro da capital convivem restaurantes novos que atraem clientela diversificada e estrangeiros, galerias de arte, teatros. 

Os grandes cinemas da Avenida da Liberdade deixaram de ter programação regular (Condes, São Jorge, Tivoli) e todos os cinemas de bairro – em Belém, na Graça, em Alfama – foram nas últimas décadas progressivamente encerrando. E o que se perde, com a transferência do cinema para as grandes áreas comerciais? “O ponto de encontro. As pessoas iam ao cinema não só ver o filme, mas para estarem juntas conversarem, tomar café. O cinema fazia parte da vida”, sustenta Pedro Borges. Para facilitar esse convívio, no final de Outubro, na sobreloja a Midas irá abrir o Salão Ideal, com serviço de cafetaria e venda de livros e DVD. 

 Quando há bem pouco tempo fecharam o Londres e os cinemas King, na zona de Alvalade, quase os últimos estandartes de cinema de bairro em Lisboa, a aposta da Midas está em contra-corrente. Mas, defende Pedro Borges, “a crise pode ser dramática, mas se calhar não tanto como imaginamos. Apesar de tudo, não fecham tantos cinemas assim e na restauração houve uma carnificina pelo país todo”. E acrescenta “Se calhar é mesmo a altura certa para abrir este cinema, vem preencher uma enorme lacuna. Há um risco, mas um risco calculado”, sustenta.

É por ter uma proposta inovadora que Pedro Borges acredita que pelo menos 1.500 espectadores por semana vão sentar-se na nova sala do Cinema Ideal, com 132 lugares na plateia e 60 no balcão, num local de grande circulação de moradores e turistas. A programação é diferente de toda a oferta existente. Um misto de cineclube com algum cinema do circuito comercial, conceito que parte de uma constatação: “A exibição cinematográfica faz-se só em torno das novidades, dos filmes de estreia. É a única arte em que isso acontece. Nas artes plásticas, por exemplo, temos acesso à contemporaneidade mas também às obras do passado”. Tirando a sala da Cinemateca, dedicada mais a ciclos longos e com um público fidelizado, não existe em Lisboa nada assim. A ideia do Cinema Ideal é cruzar públicos e incentivar a descoberta: “Queremos que as pessoas descubram coisas que pensavam até não ser para elas. Ao termos no mesmo dia uma coboiada do John Ford, e um filme que atrai muito a curiosidade, e ganhou festivais, como o E Agora? Lembra-me, do Joaquim Pinto, acabamos por lançar às pessoas o desafio de voltarem a interessar-se pelo cinema no seu todo, no presente e na sua história”.

O exemplo citado foi também o de Jerry Lewis. “Os miúdos conhecem os filmes do Eddie Murphy, se calhar se os pais u os levarem a ver outras comédias do passado vão descobrir coisas muito interessantes”. E os filmes de estreia serão escolhidos criteriosamente: “Não vamos ter tudo. Mas o novo filme do Woody Allen, Magia ao Luar, tem aqui todo o cabimento, tal como Os Maias, do João Botelho, mas na versão integral, um exclusivo, com cerca de 45 minutos a mais que a versão que passará nas outras salas”. A partir de uma colaboração com a Cinemateca, haverá ainda a exibição das cópias restauradas digitalmente de Verdes Anos e Mudar de Vida, do cineasta já desaparecido Paulo Rocha. 

A compra dos clássicos dos grandes estúdios americanos será feita em empresas em Londres, que asseguram a distribuição para a Europa, como a Hollywood Classics, mas também estão a ser negociados marcos do cinema europeu, cuja lista ainda não está fechada. 

A rotação dos filmes, que permanecem em cartaz entre uma ou duas semanas, vai fazer-se de acordo com a adesão do público, mas serão sempre pelo menos dois filmes em exibição em horários alternados. E para facilitar o acesso a “pessoas com menos disponibilidade financeira”, o Cinema Ideal terá uma política de descontos.

500 mil euros de investimento

Quando em Novembro do ano passado a sala ficou finalmente disponível, após a saída dos anteriores locatários, a equipa da Midas deparou-se com “uma imensa surpresa, um interior completamente apodrecido. Em que foi preciso começar do zero”. Foi necessário fazer projectos de ar condicionado, dispositivos de segurança e electricidade. 

Quinhentos mil euros foi o valor global do investimento incluindo material de projecção. E só foi possível, diz Pedro Borges, porque “os arquitectos trabalharam aqui sabendo que a nossa disponibilidade financeira era pouca”. Só não houve segundas escolhas no equipamento de projecção, da marca Christie, cujo valor atingiu os 120 mil euros: “É material topo de gama, do melhor que há, aqui não houve condescendência. Não queremos defraudar o espectador que tem direito ao melhor som e imagem possível”.

No processo de reabertura deste marco da história do cinema em Portugal, Pedro Borges lamenta a ausência de apoios. Desde os institucionais, como a Secretaria de Estado da Cultura, às empresas. “Pedimos à Corticeira Amorim que nos cedesse os 9 mil euros do revestimento do chão, tendo como contrapartida uma placa que estaria visível na sala. E não aceitaram, sendo o Américo Amorim um dos homens mais ricos de Portugal e o mesmo aconteceu com várias outras empresas. Isto para um projecto cultural que vai ser uma atracção numa zona nobre”.

E o empréstimo, diz Pedro Borges, foi contraído num banco estrangeiro, o Santander, porque “a Caixa Geral de Depósitos, que já foi muito importante para o cinema português, com um protocolo com o Instituto Português de Cinema durante décadas, não aceitou fazer um empréstimo para este projecto”. Os únicos apoios, refere aquele responsável da Midas, vieram da Câmara de Lisboa e da Casa da Imprensa. “É importante que se diga que o projecto só existe porque o senhorio é a Casa da Imprensa e porque esta direcção quis continuar a tradição deste espaço, mantendo-o como sala de cinema”, sublinha Pedro Borges, salientando que haverá vários projectos desenvolvidos com esta associação mutualista de jornalistas.

Na ocasião da inauguração do novo Cinema Ideal foi igualmente lançado um livro da autoria de Maria do Carmo Piçarra que traça a história dos 114 anos da velha sala, desde os primeiros anos em que o comandante dos Bombeiros Voluntários da Ajuda, António Silva, dava a voz atrás do pano a personagens dos filmes mudos, dando assim início à sua gloriosa carreira, até à importância fundamental da Casa da Imprensa na dinamização dos Festivais de Cinema em Lisboa, nas décadas de 50 e 60. 

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