Internacional

Dilma quer criminalizar homofobia enquanto Marina afasta rótulo de fundamentalista

A Presidente do Brasil e candidata do PT à reeleição, Dilma Rousseff, admitiu ontem pela primeira vez que a homofobia deve ser “criminalizada” porque é “algo com o qual possamos viver” e “é uma ofensa ao Brasil”. Dilma falava aos jornalistas no final do segundo debate das eleições presidenciais, marcadas para 5 de Outubro, e depois de Marina Silva, candidata da coligação ‘Unidos pelo Brasil’, da qual faz parte o PSB, eliminar em menos de 24 horas do seu programa de governo apresentado na sexta-feira duas propostas que defendiam a criminalização da homofobia e o casamento entre pessoas do mesmo sexo. 


“Sou contra qualquer forma de violência contra pessoas. No caso específico da homofobia, eu acho que é uma ofensa ao Brasil. Fico triste de ver que temos grandes índices atingindo essa população. Acho que se deve criminalizar a homofobia, que não é algo com a qual possamos conviver”, declarou a candidata à saída dos estúdios da SBT. 

A posição da candidata à reeleição surpreendeu a opinião pública brasileira, nomeadamente a comunidade gay, já que o governo de Dilma deu orientações aos partidos que apoiam o governo no Congresso para que não fosse votado o projecto de lei que criminaliza a homofobia, o que levou o diploma a ser anexado ao projecto de revisão do Código Penal que ainda não foi votado.

Durante o debate, Rousseff nunca tocou no assunto, nem mesmo Aécio Neves, candidato do PSDB. Mas Silva foi desafiada por Luciana Genro, candidata do PSOL, a explicar o que se passou em menos de 24 horas para que as duas propostas fossem retiradas. Na resposta, a ex-senadora clarificou que se tratou de um erro. “Foi em função de um erro que a equipa do programa de governo fez no processo. Nós defendemos as liberdades individuais e queremos combater toda e qualquer forma de discriminação a quem quer que seja”, afirmou. 

A inscrição destes dois pontos no programa de Marina Silva causou polémica na conservadora comunidade evangélica, onde está uma parte significativa do eleitorado da seguidora da Assembleia de Deus. Antes de ir para o debate de ontem à tarde, a candidata convocou os jornalistas para uma conferência de imprensa à porta da sua casa, em São Paulo. na ocasião, insistiu que defende a união entre pessoas do mesmo sexo e não o casamento. Lembrou ainda que o programa teve o contributo da sociedade civil, representada em organizações e movimentos, inclusive movimentos LGBT. 

À noite, e já depois do segundo debate, a evangelista recusou assumir no Jornal da Globo, da Rede Globo, que é contra o casamento gay. Optou por clarificar que é a “favor das liberdades individuais” e por recordar que o Brasil é “um Estado laico”.  Sobre o projecto de lei que está no Congresso à espera de votação, Silva explicou que o diploma “não faz a diferenciação adequada em vários aspectos”, como o “preconceito e a discriminação” dos “aspectos ligados à convicção ou à manifestação de uma opinião”. 

Sobre as acusações de que é “fundamentalista” e de que toma decisões lendo a Bíblia aleatoriamente, conforme notícia da Folha de São Paulo, Marina Silva deixou a resposta: “Isso é uma forma que as pessoas foram construindo para tentar passar a imagem de que eu sou uma pessoa que é fundamentalista, essas coisas que muita gente de má-fé acaba fazendo”. Sobre a Bíblia, admitiu que é “uma referência e uma fonte de inspiração” mas frisou que “as decisões são tomadas com base racional, para todas as pessoas”, afastando, assim, que as suas decisões sejam tomadas única e exclusivamente a partir dos princípios e pressupostos da fé.

ricardo.rego@sol.pt