Economia

OCDE: Novos cortes de salários em Portugal podem ser 'contraproducentes'

A OCDE estima que dois terços dos trabalhadores portugueses tenham tido cortes salariais durante a crise dos últimos anos e que os salários reais tenham caído “consideravelmente” desde 2009. Para a organização, este ajustamento contribuiu para restaurar a competitividade, mas causou também dificuldades financeiras significativas, “especialmente entre os trabalhadores com vencimentos mais baixos e as suas famílias”. Por este motivo, considera que novos cortes salariais “podem ser difíceis de alcançar, ou mesmo contraproducentes”.

Segundo as estimativas da organização, que publicou hoje um relatório sobre o mercado de trabalho global, houve “cortes substanciais” nos salários reais em Portugal. As contas da OCDE indicam que o salário por hora caiu cerca de 2% no país, entre o início de 2009 e o final de 2013.  Embora os salários em Portugal tenham também crescido mais antes da crise, os cortes durante a crise foram mais expressivos do que a média da Zona Euro e da OCDE, cujo crescimento real dos vencimentos ficou perto de zero. Só em 2010, diz a OCDE, houve dois terços de trabalhadores portugueses com cortes.

A organização considera que o desemprego em Portugal continua demasiado elevado, sobretudo entre os jovens, e alerta ainda a fraca qualidade dos postos de trabalho em Portugal. A OCDE criou um indicador baseado em três critérios – qualidade salarial, segurança do mercado de trabalho e qualidade do ambiente laboral – e Portugal tem um desempenho abaixo da média. Apesar de o país estar em linha com a segurança média do emprego na OCDE, os baixos salários e as condições “stressantes” e “difíceis” no trabalho penalizam o país.

O facto de o país ter 21% dos trabalhadores com contratos temporários, contra uma média de 12,9% na OCDE, é também alvo de reparos da organização. “Os trabalhadores com estes contratos muitas vezes enfrentam um grau mais elevado de insegurança do que os trabalhadores com contratos permanentes, e as empresas podem investir menos em formar trabalhadores não-permanentes,  que por sua vez pode diminuir o crescimento da produtividade”.

joao.madeira@sol.pt