Internacional

Marina quer o fim da velha política mas conta com os velhos protagonistas

Marina Silva, a candidata por acidente à presidência do Brasil, explicou que a sua candidatura tem um objectivo político muito claro: pôr fim à polarização que domina os órgãos de poder Executivo no país nos últimos 20 anos, ora com o PSDB, ora com o PT. Só que a ambientalista, que viu negada pelo Tribunal Superior Eleitoral a transformação da sua Rede Sustentabilidade em partido político, por não ter o número suficiente de assinaturas, dá sinais de que quer  abandonar a “velha política” mas não “os velhos protagonistas”. 


A primeira nota desta intenção tem sido expressa nas últimas semanas com os elogios rasgados a Fernando Henrique Cardoso, histórico do PSDB e ex-Presidente do Brasil, e a Luiz Inácio Lula da Silva, o sindicalista do PT com quem travou longas batalhas e com quem colaborou como ministra do Meio Ambiente quando Lula era Presidente. A candidata, face estes elogios, tem sido pressionada pela imprensa brasileira a avançar em pena campanha eleitoral alguns nomes com quem possa vir a formar governo, se vencer as eleições, como sugerem as sondagens das últimas semanas que lhe dão vitória no segundo turno, a 26 de Outubro. 

Esta terça-feira, numa entrevista ao jornal Estado de São Paulo, Marina Silva admitiu que será “melhor falar com Lula e com Fernando Henrique Cardoso do que com “José Sarney, Collor, Paulo Maluf e Renan Calheiros”, estes últimos envolvidos de alguma forma ou de outra em escândalos de corrupção, através de suspeitas ou de julgamentos. Já Eduardo Giannetti, conselheiro económico da candidatura da coligação “Unidos pelo Brasil”, afirmara à Folha de São Paulo no final de Agosto que a governação e as negociações para aprovar diplomas no Senado e na Câmara dos deputados deve ser feita com os dois ex-presidentes, ideológica e historicamente afastados mas ainda com grande capacidade de mobilização no interior dos respectivos partidos, no caso PT e PSDB. 

A recomendação do conselheiro de Marina não ficou sem resposta. Menos de 24 horas depois, e ao lado de Aécio Neves, o candidato do PSDB com quem Marina disputa o segundo lugar e consequente passagem ao segundo turno com a sucessora de Lula, Fernando Henrique Cardoso afirma que “no mandato do Aécio (eu) gostaria de muito de ter a aliança da Marina Silva”. E deixou um conselho ao candidato do seu partido: Aécio não deve polarizar a campanha com Marina. O mesmo é dizer que deve deixar a porta aberta a um apoio à ex-ministra de Lula no segundo turno. Porque o objectivo, lembrou, é tirar o PT do poder. 

A agenda de Marina para esta “nova forma de fazer política” vai sendo descodificada à medida que se aproxima o dia em que os brasileiros vão às urnas. Mas na maioria dos artigos de opinião publicados na imprensa brasileira, há quem acuse a candidata de ter um discurso “redondo”, pouco ou nada pragmático. Rousseff já questionou inclusive a sua adversária sobre a viabilidade das suas propostas: “Diz que vai fazer isto tudo mas ainda não disse onde vai buscar dinheiro para isso”. Mais à esquerda, Luciana Gero, candidata do PSOL, desafiou Marina a clarificar se está do lado de Lula, e pretende seguir a sua receita, ou se será uma seguidora de Fernando Henrique Cardoso. “Marina, você é a 2.ª via do PSDB?”, questionou, durante o segundo debate presidencial, esta segunda-feira. 

Ora, para Marina “o novo não existe”. Mas a “velha política” irá dar lugar à 3.ª via, como disse Eduardo Campos, então candidato da coligação ‘Unidos pelo Brasil’ antes do acidente aéreo que o vitimou mortalmente, e será criada “em cima do que é preservado”. Até ao final da campanha, e face aos ataques do PT de que Marina no poder significará um “retrocesso” em termos económicos e sociais para o país e para a população, a candidata assume que quer “fazer mudanças, sem desconsiderar as conquistas”. Isto, para não assustar o eleitorado indeciso em premiar ou penalizar o governo PT. 

Em termos de política económica, Marina Silva não tem dito mais do que vai “manter e aperfeiçoar o tripé da política económica: baixar a inflação, reduzir os juros e continuar a crescer”. O objectivo, assumiu, é recuperar a confiança dos mercados e voltar à estabilização económica dos tempos de Fernando Henrique Cardoso. Na política social, os ganhos são igualmente para “manter”, nomeadamente através da “transferência de renda que ajuda as pessoas e que ajuda a aquecer a economia local”. Mas, neste campo, a ambientalista é mais clara: fala em políticas sociais de 3.ª geração e em economia criativa. 

“Queremos também chegar à política social de 3ª geração para que as mães da ‘Bolsa Família’ (programa de combate à pobreza criado por Lula e que em Abril de 2014 pago a 14 milhões de famílias e beneficiou 50 milhões de pessoas) não gerem os filhos da ‘Bolsa Família’”, clarificou ontem, sem especificar que medidas tem previstas para conseguir alcançar este objectivo. 

ricardo.rego@sol.pt