Economia

Dúvidas industriais

Em Portugal e na maior parte do mundo a indústria tem vindo a perder peso relativo no PIB e no emprego. Evolução inversa acontece no sector dos serviços. Entre nós há quem aponte a necessidade de uma reindustrialização para relançar a economia. Neste ponto coincidem, por exemplo, o ministro da Economia, Pires de Lima, e o líder da oposição, António José Seguro. Ambos propõem programas de industrialização.

Mas o assunto não é tão simples como parece. Em primeiro lugar, a distinção entre indústria e serviços não é hoje nítida como era no passado - e sê-lo-á cada vez menos. Os serviços informáticos invadiram praticamente todas as actividades industriais, bem como os serviços de marketing e outros. Onde começam os serviços e termina a indústria, não é muitas vezes fácil dizê-lo.

Depois, a ideia de que a indústria é a grande criadora de emprego foi verdadeira no passado, mas já não o é no presente e ainda menos o será no futuro. O capitalismo industrial, da produção em massa, era um grande empregador. Mas a informatização das empresas e a crescente automatização, com recurso a robots nomeadamente, limitam agora essa capacidade. Em Portugal a indústria 'empregadora' era baseada na mão-de-obra pouco qualificada e barata (confecções, cablagens, etc.). As empresas desse tipo partiram para outras paragens e não voltam. As novas indústrias são menos trabalho-intensivas.

Também se defende a reindustrialização alegando que ela estimulará as exportações. Mas já hoje, em Portugal, os serviços lideram as exportações, seja directamente (como no turismo ou na venda de serviços informáticos), seja pela sua incorporação no conteúdo dos bens exportados.

Em terceiro lugar, a fragmentação geográfica do processo produtivo moderno torna problemática a classificação como 'nacional' ou 'estrangeira' da maior parte dos bens e serviços. Conta-se que, há anos, uma grande empresa americana se queixou de umas importações do Japão, que ela considerava fazerem-lhe concorrência desleal. Estudado o assunto, concluiu-se que o produto vindo do Japão incorporava mais valor acrescentado norte-americano do que a versão final saída de uma fábrica nos EUA.

Claro que no sector dos serviços coexistem actividades muito diferentes. Umas são de alta tecnologia e viradas para a exportação, incorporando-se numa cadeia globalizada de produção; outras são trabalho-intensivas e restritas ao mercado interno (como cuidar de idosos e doentes, por exemplo).  

Veja-se o que se passou na Grã-Bretanha nos últimos seis anos. Embora fora do euro, o ministro das Finanças, George Osborne, aplicou um severo programa de austeridade para travar o défice das contas do Estado. A economia britânica caiu. Mas agora está a crescer mais do que os EUA, o Japão ou qualquer país da UE.

Graças à aposta de Osborne na revitalização da indústria? Não. Revelou-se totalmente ilusória a ideia de Osborne de que a Grã-Bretanha iria regressar à indústria e tornar-se menos dependente dos serviços (financeiros, nomeadamente), que em 2008 já representavam 80% do PIB britânico.

A produção da indústria transformadora na Grã-Bretanha é actualmente perto de 10% inferior à registada em 2008; em contrapartida, o produto gerado nos serviços é superior em 4%. São os serviços o motor da recuperação económica britânica. 

P.S. Esta coluna estará em férias nas três próximas semanas.