Cultura

Palestina à beira-mar

É sobre uma Palestina inventada, feita de sonhos com casas à beira-mar, que se contrapõem a uma realidade miserável, onde nada resta a um povo a não ser uma galinha e uma casa bombardeada, a peça do italiano Antonio Tarantino A Casa de Ramallah, que os Artistas Unidos estreiam no Teatro da Politécnica, em Lisboa, hoje. Num comboio fantasioso que percorre o território segue uma família de pai, mãe e filha. Nada têm e por isso nada têm a perder.

No destino espera-os uma causa em que não acreditam. Mas a vida da filha vale a hipótese de um sonho. 

Encenada por Jorge Silva Melo e protagonizada por Andreia Bento, Nídia Roque e António Simão, a peça é agora levada à cena não tanto pela sua actualidade - apesar de o conflito nunca ter terminado, a decisão de a estrear agora foi tomada antes do seu reacender neste Verão - mas por reunir uma série de condições: estava traduzida (tinha sido feita uma leitura, há uns anos, no Festival de Teatro de Almada), permitia uma encenação com poucos recursos (o cenário limita-se a uns bancos de madeira) e rendibiliza o Teatro da Politécnica em Setembro (está aberto um concurso público para a concessão do espaço e os Artistas Unidos terão que o abandonar a partir de Outubro).

“A decisão de a encenar foi tomada antes do reacender explosivo daquele conflito, que nunca está apagado”, diz Andreia Bento. “De repente houve uma série de informação que estava muito mais próxima e mais presente que nos ajudou a conhecer melhor esta realidade, embora eu ache que a peça não é totalmente sobre o conflito Palestina-Israel mas, sobretudo, sobre a miséria da condição humana. Podia passar-se na Palestina como, infelizmente, noutros pontos do mundo”. António Simão explica: “Esta é uma peça sobre os pobres. Aqui há a alegoria do conflito israelo-árabe mas fala da condição humana e sobre aquilo que as pessoas fazem quando estão nesta situação, em que vendem os filhos e o que for preciso para sobreviver, ter uma casinha e meia dúzia de galinhas”. 

rita.s.freire@sol.pt