Internacional

Aye escocês, pânico inglês

De um lado, uma campanha alegre, utópica, a prometer mais do que a possibilidade de os escoceses poderem decidir por si próprios; do outro, uma campanha baseada mais no medo e nas emoções do que numa discussão séria. Pelo meio, um erro de cálculo de David Cameron, que lhe pode custar o futuro político, e sobretudo o fim do Reino Unido como o conhecemos.


Se na próxima quinta-feira a maioria dos escoceses - e não só, qualquer cidadão britânico e da União Europeia residente na Escócia, com mais de 16 anos, o pode fazer - votar Sim à independência só há duas certezas: a de que o dia 24 de Março de 2016 é a data apontada para a secessão, e a de que os escoceses viverão os próximos meses a lamber as feridas de um debate que apaixonou e dividiu a sociedade.

Apesar de a mais recente sondagem dar seis pontos de avanço para os unionistas, a anterior dava 51% aos independentistas.

Os escoceses que fazem campanha pelo Sim querem beneficiar do petróleo e do gás do Mar do Norte, dizer adeus aos cortes e à austeridade imposta por Londres ao apostarem nos serviços públicos de qualidade, ver as armas nucleares saírem do território, e ter uma voz activa na Europa, em contraponto ao eurocepticismo reinante em Inglaterra. No fundo, aspiram a uma espécie de Noruega servida a whisky. Mas o debate fez-se e no fim são mais as incógnitas do que as certezas.

Tiros no escuro

Questões básicas como o tipo de regime, a moeda, ou a pertença a organizações internacionais ficam por definir. Como testemunha no Financial Times o antigo líder trabalhista na Escócia George Robertson, um taxista em Glasgow que mudara do Não para o Sim reconhecia os riscos da decisão - mas confiava em Robertson, Gordon Brown e noutros dirigentes escoceses a favor da continuidade no Reino Unido para negociarem com Londres após a separação.

A Rainha de Inglaterra continuará a ser chefe do Estado da Escócia. O que está em causa no referendo é terminar ou continuar a união das nações e não a união das coroas, o que sucedeu em 1603 quando Jaime VI da Escócia se tornou Jaime I de Inglaterra e da Irlanda. Um novo referendo teria de ser realizado para os escoceses decidirem se querem continuar súbditos ou se preferem tornar-se uma república (Isabel II fez saber apenas que se trata de “um assunto dos escoceses”).

Quanto à moeda a adoptar, a opção que os nacionalistas escoceses preferem (manutenção da libra esterlina) não será fácil. O governador do Banco de Inglaterra, o canadiano Mark Carney, já avisou que uma união monetária é impossível. E caso Edimburgo opte pela chamada 'esterlinização', isto é, a manutenção informal da libra, terá de reunir uns 20 mil milhões de libras em reservas bancárias.

Sobre a adesão à União Europeia, a entrada poderá demorar muito mais do que o líder escocês Alex Salmond prevê (18 meses). Além de esta hipótese não estar prevista nos tratados, terá de ser aprovada por todos os Governos e Parlamentos europeus - a começar pelo inglês, que pode usar essa cartada como dura moeda de troca na divisão dos proveitos dos hidrocarbonetos, por exemplo. Mas também os Governos espanhol e belga podem não aceitar a Escócia, tendo em conta os movimentos secessionistas da Catalunha e da Flandres, respectivamente.

Se no princípio da campanha os protagonistas pelo Sim eram figuras públicas como os cantores David Bowie ou Rod Stewart, a actriz Emma Thompson ou a escritora J.K. Rowling (e por não serem escoceses foram alvo de críticas nas redes sociais), perante o cenário cada vez mas real de os escoceses saltarem para fora da união os últimos dias foram marcados pela pressão política e financeira. Na quinta-feira, fomentando a incerteza nos mercados financeiros, os bancos Lloyd's e Royal Bank of Scotland anunciaram a mudança de sede de Edimburgo para Londres, em caso de vitória do Sim.

Dois dias antes, os líderes dos maiores partidos britânicos assumiram o compromisso de conceder mais poderes ao Parlamento escocês, num pacote cujo valor pode ascender aos 16 mil milhões de euros. Depois, o conservador Cameron, o liberal-democrata Nick Clegg e o trabalhista Ed Miliband foram em campanha para a Escócia. «Há muitas coisas que nos dividem, mas há uma em que estamos apaixonadamente de acordo: o Reino Unido é melhor se permanecermos juntos», escreveram.

cesar.avo@sol.pt