Cultura

Todos os dias Margot arriscava a vida por Hitler

Margot Wölk provava a comida (toda vegetariana) de todas as refeições de Hitler antes de estas serem servidas à mesa do ditador. Cada refeição podia ser a sua última. A cada prato que chegava, um grupo de 15 mulheres polacas e alemãs serviam de cobaias e arriscavam a vida por Hitler. No final da prova, Wölk, 25 anos, e as restantes colegas rebentavam em lágrimas e a “chorar que nem cães” porque estavam vivas.

As histórias são contadas décadas depois do final da Segunda Grande Guerra pela única sobrevivente do grupo, Margot Wölk, que não foi nazi, tem hoje com 96 anos. Todas as outras morreram às mãos do Exército Vermelho em Janeiro de 1945. Wölk conseguiu finalmente ultrapassar os sentimentos de vergonha e quebrou finalmente o silêncio a uma televisão alemã.

“A comida era sempre vegetariana”, contou ao canal RBB Berlim a sua angustiante e por vezes horrível experiência, numa entrevista lançada na passada terça-feira. “Havia rumores contantes de que os britânicos queriam envenenar Hitler. Ele nunca comia carne. Era-nos dado arroz, massas, pimentões, couve-flor e ervilhas”.

A alemã, nascida em Berlim, foi parar a provadora de comida de Hitler por acidente. O marido estava nos campos da guerra e por isso Wölk mudou-se para o interior da cidade de Partsch (hoje Parcz, na Polónia), onde a sua mãe morava, que ficava muito perto da “Toca do Lobo”, o quartel-general de Hitler durante a guerra.

Margot Wölk tem hoje 96 anos

E acrescentou: “Algumas das raparigas começavam a chorar assim que começavam a comer. Tínhamos de comer tudo e depois tínhamos de esperar cerca de uma hora e estávamos sempre com muito medo que ficássemos doentes. Costumávamos chorar que nem cães por termos sobrevivido”, lembra.

Rodeada de ursos polares de peluche, Wölk contou a sua história no mesmo apartamento de Berlim no qual nasceu em 1917.

E conta que conseguiu sobreviver graças a ajuda de amigos que fizera junto da polícia nazi (SS), que a ajudaram a fugir. Mesmo assim, nem o final da guerra acabou com o sofrimento. Wölk foi violada repetidas vezes pelos soldados soviéticos, cujo exército tinha tomado Berlim em Maio de 1945. “Rasgaram os nossos vestidos e abusaram sexualmente de nós durante duas semanas. Foi o inferno na Terra. O pesadelo volta sempre”, desabafa.

Em 1946, o marido Karl voltou para casa, depois de ser libertado pelos soviéticos. Os traumas de guerra nunca passaram e o casal separou-se. Karl morreu há 24 anos e, desde então, Margot passa os dias sozinha, com as suas memórias. E pesadelos.

SOL