Vida

A caminho dos 11 mil milhões

Se as coisas são difíceis com sete mil milhões, imagine-se quando a conta chegar aos 11 mil milhões. Descansem os obcecados pelo serviço da dívida, não é dessas contas que falamos. Um estudo demográfico da ONU publicado pela revista especializada Science prevê que até 2100 a população mundial atinja a cifra de 11 mil milhões de almas.

A projecção contraria outros estudos anteriores das Nações Unidas, segundo os quais, neste lapso de tempo, o número de seres humanos no planeta estabilizaria, devido a vários factores, entre os positivos – uma maior disseminação pelos continentes de métodos anticoncepcionais – e os negativos, como uma grande epidemia.

No que toca a esta última variável, o impacto que o ébola está a ter na África Ocidental ameaça dar razão à ONU. Mas nem um vírus tão mortal como este poderá travar a marcha de mais um aumento demográfico significativo da humanidade. De acordo com os investigadores que assinam o estudo, há uma hipótese de oito sobre dez de a subida demográfica se situar entre os 9,6 e os 12,3 mil milhões. “Podemos vir a ter epidemias ou guerras ou outros problemas que levem a uma grande mortalidade”, explica à Science Adrian Raftery, da Universidade de Washington (EUA), um dos autores do artigo. “Mas, honestamente, seria preciso um acontecimento de uma amplitude enorme para desviar esta trajectória ascendente”.

O continente africano estará à proa destes índices de natalidade. Com um padrão familiar que se situa nos quatro a cinco filhos por casal, África, que agora conta com cerca de mil milhões de pessoas, poderá chegar às quatro mil milhões em 2100. Só a Nigéria, continuam os investigadores, onde vivem actualmente 160 milhões de pessoas – é o país mais populoso do continente – poderá chegar aos 500 milhões de habitantes até ao fim do século. Para isso contribui a alta taxa de fecundidade das africanas, que se alia à dificuldade aguda de acesso à contracepção por quase metade delas. A estabilidade poderá ser a tendência nos restantes continentes.

ricardo.nabais@sol.pt