Politica

Seguro e Costa sempre em sensibilidades distintas

António José Seguro e António Costa, adversários nas primárias de domingo do PS, integraram os governos liderados por Guterres (1995/2002), mas desconhecem-se relações de cooperação entre os dois e mantiveram sempre grupos políticos distintos.

"Não o conheço bem. Sei quem ele é, já nos cruzámos (...) mas não é uma pessoa com quem tenha convivido", declarou o presidente da Câmara de Lisboa sobre António José Seguro em Junho de 2011, poucos dias depois de o actual secretário-geral ter anunciado a sua candidatura à sucessão de José Sócrates na liderança do PS.

A resposta de Costa surpreendeu muitos socialistas, porque António Costa e António José Seguro estavam ambos já nessa altura há quase três décadas, ininterruptamente, junto da primeira linha política do PS.

Um dos dados mais inequívocos da ausência de relações bilaterais é que só nos últimos três anos são conhecidos registos de fotos conjuntas, em que Seguro e Costa aparecem abraçados ou a conversar um com ou outro no final de uma acção de campanha, ou durante um congresso partidário. 

Caso se ande para trás no tempo, será extraordinariamente difícil encontrá-los juntos, senão mesmo impossível, apesar de terem partilhado muitas vezes o mesmo espaço.

Entre 1995 e 2001, nas equipas governamentais de Guterres, António Costa foi secretário de Estado dos Assuntos Parlamentares, ministro dos Assuntos Parlamentares e, finalmente, ministro da Justiça de António Guterres, período em que António José Seguro começou por secretário de Estado da Juventude, depois eurodeputado e ministro-adjunto do primeiro-ministro.

Destes anos de Governo, sobre alguns dos episódios mais negativos que marcaram o período final "guterrista" - o processo que levou à demissão do então ministro das Finanças Pina Moura, ou a crise em torno da lei "álcool zero" na condução -, o presidente da Câmara de Lisboa e o secretário-geral do PS ainda hoje apresentam versões bem distintas sobre o que aconteceu e sobre quem foram os responsáveis. 

Nos dois anos e meio de liderança de Ferro Rodrigues, Seguro coordenou a campanha eleitoral das legislativas de 2002 e no final de 2004 chegou a líder parlamentar do PS, sucedendo precisamente ao actual presidente da Câmara de Lisboa.

Por sua vez, Costa integrou o "núcleo duro" do secretariado nacional "ferrista" logo no início, assumiu as funções de presidente do grupo parlamentar e foi "o número dois" de Sousa Franco na lista socialista para o Parlamento Europeu em 2004.

Nos seis anos de governos de Sócrates, Costa e Seguro também não andaram muito longe da vista um do outro. 

Apesar de Seguro ter assumido uma relativa distância política face aos dois últimos governos socialistas, mesmo assim foi cabeça de lista por Braga nas legislativas de 2005, 2009 e 2011 e presidente das comissões parlamentares de Educação e de Economia, período em que Costa foi primeiro o verdadeiro "número dois" do executivo socialista de maioria absoluta, exercendo as funções de ministro de Estado e da Administração Interna, e após 2007 presidente da Câmara de Lisboa.

Para a corrida às eleições primárias de domingo, o presidente da Câmara de Lisboa tem no seu núcleo duro político os deputados Ana Catarina Mendes, Marcos Perestrello e Sérgio Sousa Pinto, enquanto António José Seguro apresenta no seu círculo restrito dirigentes como Jamila Madeira e António Galamba (ambos do secretariado nacional), tendo ainda como um dos seus amigos mais próximos o ex-deputado e ex-líder do PS/Aveiro Afonso Candal.

Estes dois grupos defrontaram-se em 2000, num congresso da JS em Espinho, em que Jamila Madeira venceu por um voto Ana Catarina Mendes, mas em que a polémica subiu a um nível tal (acusações de fraude não faltaram) que o então secretário-geral do PS, António Guterres, optou por não comparecer na sessão de encerramento, num sinal de desagrado pelas "cenas" que os seus "jotas" tinham protagonizado em público.

Já nessa altura, porém, se dizia que aquele confronto em Espinho, entre duas facões de jovens socialistas, constituía a antecâmara de uma futura batalha pelo poder no PS entre "costistas" e "seguristas".

Lusa/SOL