Politica

Costa e Seguro produtos da "escola" de Guterres mas separados desde 1984

António José Seguro e António Costa, que disputam domingo as eleições primárias do PS, foram formados politicamente por António Guterres, embora em períodos distintos, mas uma cisão num Secretariado da JS em 1984 afastou-os até hoje.

Mais velho do que António José Seguro escassos oito meses, António Costa iniciou-se, porém, na vida política alguns anos antes do que o actual líder socialista, e no final da década de 70 (ainda estudante liceal) surgia já a colaborar politicamente com o então secretário nacional para a Organização do PS, António Guterres.

Seguro, natural de Penamacor, cedo conheceu a actividade política do actual Alto Comissário das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR) no distrito de Castelo Branco, mas só terá começado a possuir relações de cooperação política com o ex-primeiro-ministro a partir de meados da década de 80, período em que o actual presidente da Câmara de Lisboa fazia o seu estágio de advocacia no escritório de Jorge Sampaio.

Em 1984, período do Governo do "Bloco Central" PS/PSD, liderado por Mário Soares, Costa e Seguro integraram a mesma direcção da JS, que tinha como secretário-geral José Apolinário (futuro eurodeputado e secretário de Estado das Pescas) - uma corrente que era duramente contestada pela ala esquerda dos jovens socialistas, essa chefiada por Porfírio Silva, que é no presente o coordenador da moção de Costa para as primárias socialistas.

No entanto, a convivência política entre Seguro e Costa durou apenas alguns meses, com o chamado "grupo do núcleo de Direito" a bater com a porta face às opções da sensibilidade maioritária dentro da direcção liderada por Apolinário. Seguro, ao contrário de Costa, continuou ao lado de Apolinário e seis anos depois chegou à liderança da JS, num percurso sempre em oposição à ala esquerda dos "jotas" socialistas. 

Ninguém hoje se lembra bem quais as causas profundas que estiveram há 30 anos na origem das divergências dentro do grupo de José Apolinário na JS, mas sabe-se que após esse diferendo as relações pessoais entre o actual secretário-geral do PS e o presidente da Câmara de Lisboa nunca mais foram restabelecidas. 

Ao contrário de outros socialistas que contestaram duramente o "Bloco Central" PS/PSD e que estiveram com um ou dois pés nas candidaturas presidenciais de Maria de Lurdes Pintassilgo e Salgado Zenha, Seguro e Costa integraram sem hesitações políticas a primeira campanha presidencial de Mário Soares (1985/1986) e, poucos meses depois, ambos apoiaram a ascensão de Vítor Constâncio à liderança do PS em 1986. 

Mas, neste período, apesar das coincidências nos apoios, os dois já estavam claramente envolvidos em manobras tácticas distintas no interior do PS. 

Quando Vítor Constâncio se demitiu em 1989 da liderança do PS, Seguro ainda participou num movimento para convencer o actual vice-presidente do Banco Central Europeu a voltar atrás na sua decisão, enquanto Costa já preparava a substituição de Constâncio por Jorge Sampaio.

Na sequência da derrota eleitoral do PS nas legislativas de 1991, o presidente da Câmara de Lisboa integrou o "núcleo duro" da falhada recandidatura de Jorge Sampaio à liderança deste partido em 1992. E nesse mesmo ano perdeu por três votos a liderança da FAUL para João Soares.

António José Seguro fez parte do grupo restrito de socialistas que preparou as sucessivas vitórias de Guterres, primeiro no interior PS, depois nas legislativas de 1995, mas teria um envolvimento discreto na campanha presidencial de Jorge Sampaio em 1996, precisamente ao contrário de Costa.

Lusa/SOL