Internacional

Depois de debate nervoso, candidatos estão na rua para último apelo ao voto

Dilma Rousseff esteve ontem no centro de São Paulo para receber o último banho de multidão num terreno onde a sua candidatura apresenta níveis consideráveis de rejeição. A candidata do PT teve ao seu lado Lula da Silva, fundador do partido e seu antecessor na liderança do país. Chegou de helicóptero, depois de uma acção de campanha ao início da manhã em São José dos Campos, a cerca de 100 km de São Paulo. Hoje, vai estar Porto Alegre. Segue para Rio Grande do Sul, onde vota amanhã, e por volta do meio-dia voa para Brasília, onde vai reagir aos resultados eleitorais ao início da noite. 


No centro da capital paulista, o percurso foi de pouco mais de 300 quilómetros, entre o Teatro Municipal e a Praça da República. Dilma seguia num veículo do tipo ‘papa móvel’, deixou-se fotografar, abraçou e conversou com Lula - os dois vestiam vermelho, a cor do PT - e levantava a cabeça para acenar a quem aparecia à janela dos prédios para ver passar a caravana, ora aplaudindo, ora insultando ou até mesmo atirando ovos para o meio da multidão. 

São Paulo é o maior colégio eleitoral do país, onde votam 32 milhões de eleitores (dos 142 milhões de eleitores brasileiros). Se o autarquia está nas mãos do PT - Fernando Haddad é o Prefeito -, desde que 2002 que Geraldo Alckimin, do PSDB, se mantém no poder como governador. Alckimin deverá ser reeleito, deixando Alexandre Padilha, candidato ao cargo pelo PT, em terceiro lugar. A candidatura do partido de Lula ao Senado por São Paulo não deverá conhecer melhores resultados este ano, a avaliar pelas sondagens: Eduardo Suplicy, do PT, está a 10 pontos de distância de José Serra, candidato do PSDB que, em 2010, foi derrotado por Dilma Rousseff na segunda volta das eleições presidenciais. 

O ambiente, porém, é de festa. O jingle da campanha (‘Dilma, coração valente’) é repetido nas suas versões axé e sertanejo. Há bandeiras de todas as cores e com as siglas dos movimentos sindicais. A candidatura da coligação ‘Com a Força do Povo’ (que junta nove partidos, entre eles o Partido Comunista do Brasil) mostra, mais uma vez na capital do estado, que os movimentos que chegam da cintura industrial paulista, com da grande ABC, mantém a capacidade de mobilização popular de outros tempos, como quando Lula da Silva era líder sindical dos metalúrgicos de São Bernardo do Campo e Diadema. 

No meio do apoio à reeleição de Dilma, há quem aproveite a mobilização alheia para apelar ao voto. É o caso de Tiririca, candidato a deputado federal por São Paulo pelo Partido República, que levou até pequeno largo à frente do Teatro dois representantes vestidos de palhaço para distribuir panfletos e de Léo Áquilla, um jornalista, apresentador de TV e drag queen que também concorre a deputado federal por São Paulo pelo Partido Social Liberal e que não se cansou de posar para as fotos sempre que lhe pediam. 

Menos de 24 horas depois do último debate, que aconteceu na noite desta quinta-feira na TV Globo, no centrão paulista comentava-se o derradeiro esgrimir de argumentos entre candidatos na televisão. “Dilma já ganhou na primeira volta”, ouviu-a com alguma frequência. De facto, e depois das sondagens publicadas no dia de debate darem conta de um empate técnico entre Marina Silva, candidata do PSB, e Aécio Neves na disputa pela segunda volta das eleições, o que mais se tentou perceber é quem vai à segunda volta com Dilma Rousseff, a candidata que começou esta campanha como favorita, passou por derrotada e acaba como provável vencedora. 

O modelo do debate - dividido em quatro blocos, dois de tema livre e dois de tema sorteado - favoreceu o embate directo entre os seis dos sete candidatos a Presidente do Brasil que participaram no derradeiro confronto de argumentos transmitido a partir dos estúdios da TV Globo no Rio de Janeiro. Dilma chamou três vezes Aécio para o confronto (Aécio só a chamou uma vez), sinalizando que o seu adversário é o candidato do PSDB e não Marina, que até há bem pouco tempo liderava as intenções de voto na segunda volta e que nem uma única vez foi desafiada pela candidata à reeleição a trocar argumentos. Marina, pelo contrário, chamou Dilma três vezes e Aécio duas.

Marina Silva esteve ontem no Rio de Janeiro. Hoje vai estar na zona Leste de São Paulo, em São Miguel Paulista, para uma caminhada. Segue depois para o Acre, onde vai votar amanhã em Rio Branco. Depois, volta a fazer uma viagem de seis horas de volta a São Paulo, onde vai reagir ao resultado do sufrágio. Por saber está, para já, se o último debate fez mossa na sua candidatura. 

Numa noite que não lhe correu muito bem, a ambientalista revelou fragilidades em dois momentos: frente a Dilma Rousseff, que a acusou de não saber a diferença entre autonomia e independência aplicados ao caso concreto do Banco Central, já que propõe no seu programa, recordou a candidata do PT, dar independência ao Banco Central o que pressupõe dar “um poder incomensurável” ao Banco; e frente a Aécio que questionou a ex-ministra de Lula “onde estava a nova política” quando foi descoberto o escândalo ‘mensalão’  e Marina Silva, como membro deste governo, se manteve calada. Marina respondeu que saiu do PT para se manter “fiel aos seus ideais e às suas convicções. 

Aécio Neves, a surpresa das últimas duas semanas da campanha, esteve ontem em Minas Gerais e por lá fica. Vai participar hoje em caminhadas em Betim, Contagem, Ribeirão das Neves e Santa Luzia. A aposta do tucano nesta região do país é explicada pelos maus resultados nas sondagens: Dilma Rousseff parece somar mais intenções de voto nesta região do país. Amanhã vota em Minas Gerais, onde deverá reagir aos resultados. 

Em empate técnico com a candidata do PSB (na sondagem do Datafolha de quinta-feira aparece com 21% das intenções de voto contra 24% de Marina Silva e na projecção do Ibope, do mesmo dia, soma 19% das intenções contra os 24% da ambientalista) Aécio reabriu a luta pelo segundo lugar. O ex-governador de Minas Gerais ainda pode ser o primeiro candidato do PSDB a deixar o partido fora do segundo turno. Só os brasileiros dirão amanhã. Mas para já consegue a vitória moral de ter reaberto uma discussão numa campanha onde faltou paixão e onde todos os candidatos assumiram que o que Dilma Rousseff fez de bem nestes últimos quatros anos é para manter e melhorar. 

ricardo.rego@sol.pt