Politica

Seguristas seguram-se

Álvaro Beleza negociou com António Costa um terço dos lugares na direcção. Seguristas perceberam que vitória folgada de Costa inviabilizava uma candidatura de oposição.

Com a demissão na noite eleitoral das primárias, António José Seguro saiu de cena no PS. O protagonismo entre o seu núcleo político foi, esta semana, assumido pelo colaborador próximo Álvaro Beleza. Osecretário nacional do PSfoi visto como o melhor nome para sair a terreiro contra Costa, num duelo que garantiria – esperavam os próximos do líder cessante – a sobrevivência, no PS de Costa. Beleza, no entanto, preferiu a negociação e conseguiu ontem fechar um acordo que garante um terço nos órgãos dirigentes do PS.

«Tudo farei para sarar as feridas e este acordo é expressão disso mesmo. Sarar feridas, enquanto médico, faz parte da minha vida», afirma Álvaro Beleza ao SOL. O entendimento garante que «serão tidos em conta os resultados eleitorais». Seguro teve um terço dos votos nas primárias, é essa a medida da representação. Na bancada parlamentar, quatro vice-presidências seguristas na lista de Ferro Rodrigues confirmam a validade do acordo.

João Proença, director de campanha de Seguro, aplaude o entendimento. «É essencial para o PS conseguir a unidade na diversidade. Cabe ao novo líder criar condições para a unidade, não só de participação mas também de uma moção ao congresso», diz ao SOL. Proença, recorde-se, foi o primeiro colaborador de Seguro a falar sobre o futuro do partido, no caso de Costa ganhar. Em entrevista ao SOL, na última semana de campanha, manifestou esperança numa solução de unidade.

Depois das primárias, Álvaro Beleza surgiu como o nome que reunia os apoios dos seguristas para uma candidatura. Mas o secretário nacional apressou-se a desmentir a sua disponibilidade. «Que fique muito claro de uma vez por todas, o meu candidato a primeiro-ministro é o António Costa. Não contém comigo para dividir o PS. A liderança do partido ficou resolvida domingo e, como já disse, tudo farei para unir».

Enquanto Beleza negociava com os seguristas, e depois com Costa, esfumava-se a hipótese de uma candidatura. João Soares, o primeiro nome a surgir, afastou-se da corrida. «Além de Beleza e João Soares não havia mais ninguém para uma candidatura», diz ao SOL um ex-dirigente socialista.

Secretariado misto?

Se a representação na Comissão Nacional, na Comissão Política e na bancada parlamentar são garantidas, fica a incógnita sobre a presença de apoiantes de Seguro no secretariado, a direcção executiva do PS.

Uma dúvida que poderá ficar apenas resolvida mais à frente. O secretariado – uma escolha pessoal de António Costa – só será nomeado a seguir ao Congresso (que não se realiza antes de Novembro).

Com António José Seguro houve dois modelos de secretariado. Aquando da primeira eleição, o líder rodeou-se apenas de fiéis, numa direcção criticada por não acrescentar apoios de outras alas do partido.

Tudo mudou em 2013, depois do acordo de Coimbra que selou a paz entre Seguro e Costa, com o recuo deste na intenção de se candidatar a secretário-geral. Entraram os costistas Jorge Lacão, Idália Serrão e Susana Amador. Com o avanço de Costa para a liderança, após as europeias, demitiram-se.

Na próxima semana, a convergência entre Costa e Beleza tem um novo episódio. Juntam-se as equipas da Agenda para a Década, costista, e do Laboratório de Ideias e do Novo Rumo - os think tanks seguristas. «A minha preocupação maior é preservar as ideias e os programas que António José Seguro defendeu nos últimos meses, contribuindo para a unidade do PS», diz Beleza.