Internacional

No Brasil, a pergunta já não é se Marina Silva vai ao segundo turno

Marina Silva foi a grande derrotada da primeira voltas das eleições presidenciais do Brasil, que se realizaram ontem. A candidata do PSB, que entrou como uma furacão pela campanha depois da morte de Eduardo Campos, chegou a aparecer nas sondagens como uma ameaça à reeleição de Dilma Rousseff, que acabou por ter menos votos do indicavam as projecções dos últimos dias. Agora, a grande questão é saber a qual dos seus ex-adversários vai declarar apoio. 


Ontem, Marina não conseguiu mais do que 21,32% dos votos, o suficiente para a deixar fora do segundo turno, que será disputado entre Dilma, que somou 41,59% dos votos, e Aécio Neves, do PSDB, que teve 33,55%. Na reacção ao dia eleitoral, a ambientalista recusou lamentar os 22 milhões de votos dos eleitores brasileiros. 

A candidata do PSB chegou ao seu quartel general, instalado em São Paulo, às 21h30 (1h30, em Lisboa). Sorridente e com Beto Albuquerque, o candidato a vice na sua lista, foi ovacionada pelas cerca de 100 pessoas que enchiam o espaço onde 60 jornalistas acompanharam desde o início da noite as projecções feitas à boca das urnas.

Marina começou o seu discurso por recordar Eduardo Campos e por lembrar que há precisamente um ano era oficializada a aliança entre o então candidato socialista e a fundadora da Rede Sustentabilidade, movimento que não chegou a ser formalizado como partido, com o objectivo de por um fim à polarização PT/PSDB que vem dominando a política brasileira desde que o país entrou em democracia. 

“Estou aqui não como derrotada. Estou aqui de pé e como alguém que não teve de abrir mão do que acredita para ganhar eleições”, começou por afirmar, depois de questionada pelos jornalistas se se arrepende de alguma coisa que tenha feito durante a campanha agora que se sabe que não conseguiu convencer um número suficientes de eleitores de que tinham as melhores propostas para discutir a liderança do país para os próximos quatro anos com a sucessora de Lula da Silva. “A decisão de que não vale ganhar a qualquer custo, a qualquer preço, não é uma decisão de campanha. É uma questão ética”, acrescentou. 

Candidata recorda as 'condições adversas' em que concorreu

Marina Silva considerou o resultado que obteve “uma vitória face a uma inédita e despropositada agressividade política”, numa referência aos ataques do PT de Dilma e do PSDB de Aécio, neste último caso com maior intensidade nos últimos dias da campanha. “Eu venho de uma realidade dura. Vi pessoas serem assassinada por defenderem os seus ideais”, relativizou.

Questionada sobre o facto de se manter como a terceira candidata mais votada nesta corrida presidencial, tal como em 2010, ano em que  conseguiu 19,33% dos votos como candidata do Partido Verde, a ex-senadora voltou a congratular-se com o resultado e alertou para as “condições adversas” em que participou na campanha: substituiu um candidato que morreu quando não se tinha posicionado para ser candidata a Presidente do Brasil; manteve os acordos estabelecidos entre o PSB e a Rede teve apenas 40 dias para disputar eleitorado. 

A pergunta que vai dominar a campanha eleitoral nas próximas horas ou até mesmo nos próximos dias já não é se Marina Silva vai ou não ao segundo turno, como aconteceu nas últimas duas semanas. Agora, as atenções vão virar-se para o apoio que a ex-candidata vai dar aos seus ex-adversários que continuam em jogo. Sobre isso, a ex-ministra do Meio Ambiente nos governos de Lula da Silva clarificou que para já os partidos da coligação ‘Unidos pelo Brasil’ vão reunir-se isoladamente para avaliar cenários, embora mantendo diálogos entre si. Uma coisa certa, garantiu: “O nosso programa é a base para qualquer diálogo”.

Sem fechar explicitamente a porta a um apoio ao PT de Dilma ou ao PSDB de Aécio, frisou que o seu objectivo “não é acabar com a Dilma ou com o Aécio, nem com o PT ou com o PSDB. É acabar com a polarização”. O PSB pode decidir apoiar um candidato e Marina Silva, que deverá desvincular-se do partido a que aderiu no ano passado para poder ser candidata a vice nas suas lista, outro. Quer a ex-senadora apoie Dilma ou Aécio, há uma questão de fundo que vai ter de ser muito clara a responder: como é que uma candidata que é pelo fim da polarização apoia um dos candidatos precisamente dos partidos da polarização? 

Em 2010, depois de empurrar Dilma Rousseff para o segundo turno disputado com José Serra, candidato do PSDB que acabou derrotado, Marina Silva manteve-se neutra e não revelou que candidato apoiava. Mas desta vez, provavelmente será cobrada por Fernando Henrique Cardoso, ex-líder dos tucanos, já que durante a campanha disse repetidas de vezes que se vencesse as eleições iria procurar o ex-Presidente do Brasil para afinar possíveis entendimentos.

A até agora candidata do PSB poderá ter dado ontem um sinal: repetiu que “os brasileiros expressaram uma vontade de mudança” e sublinhou que “estamos no segundo turno com os valores que nos orientaram nessa campanha. Vamos continuar esse processo”, disse. Ao lado de quem? É a pergunta para os próximos dias. 

ricardo.rego@sol.pt

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