LifeStyle

Os sabores da baixa (e arredores)

O estuário do Tejo, onde se espelha Lisboa, encontra-se coberto por uma fina folha de neblina branca. Estou a passar por baixo da Ponte 25 de Abril. Por  aqui o rio atinge 32 metros de profundidade. O barco que me transporta rasga as águas contra a corrente. Vem cheio de vontade de terra. Os fenícios, que fundaram a cidade, já faziam esta mesma travessia mesmo antes de Cristo ter nascido.

Lembro-me também dos dois corvos que chegaram num barco com o cadáver de um espanhol a bordo - seco e desfigurado. Falo-vos de São Vicente. Sem proferir uma palavra, torna-se santo e relíquia de sacrário. Estes corvos estão presentes no brasão do Município e em algumas toponímias da cidade.

Caminho no Terreiro do Paço, ou Praça do Comércio, consoante se coloque a ênfase no palácio real que foi destruído pelo terramoto ou na Bolsa de Comércio que ali se instalou em 1770.

Aqui ao lado, na esquina da praça com a rua do Arsenal, parecem ainda ecoar os dois tiros que soaram a 1 Fevereiro de 1908. 'Pum!! Pum!!!' . O tiro mortal que vitima o Rei D. Carlos encharca a rainha Dona Amélia em lágrimas de luto. No chão, esvaía-se em sangue o príncipe herdeiro Luís Filipe. A bala acertou-lhe em cheio na face. De azul, o sangue mudou para o vermelho da bandeira da República, criada por Columbano Bordalo Pinheiro e hasteada em 1910.

Depois de parar no Martinho da Arcada, um dos muitos cafés frequentados por Fernando Pessoa, sigo pela rua Augusta. É de calçada larga, branca e decorada com vários motivos em pedra negra. Há lojas por todo o lado, mas também muitos prédios desabitados e com ar abandonando ao longo dos quarteirões. No início da rua está o MUDE (Museu do Design e da Moda - Colecção Francisco Capelo) que aconselho a visitar. A entrada é gratuita.

À luz do dia sou interpelado por indivíduos que tentam vender droga a todos os que passam. Falam em todas as línguas. Sibilam "haxxxxxxssss" como as cobras para as presas.

Viro para a rua dos Sapateiros em direcção ao animatógrafo. A fachada em ferro pintado de verde, datada de 1908, é uma das mais representativas do movimento Arte Nova na cidade. Motivos vegetalistas coadunam-se com uma notável composição de dois painéis de azulejos policromos. Foi um dos primeiros cinemas da cidade.

Entro por uma cortina vermelha. Encontro-me num espaço especializado em pornografia. Vendem-se DVD, equipamentos para aumentar o prazer e há actuações de sexo ao vivo a que chamam peep show. Um conjunto de cabines rodeia o palco. Insiro uma moeda para descortinar uma janelinha que permite ver um casal encavalitado com expressões faciais de relativa sinceridade, em pleno acto sexual. Todas as cabines disponibilizam guardanapos para os mais entusiasmados neste momento voyeurista.

Dali passo para o Nicola, o café preferido do poeta Bocage. Há quinze anos, quando era estudante, costumava fumar um cigarro enquanto lia o jornal numa destas belíssimas mesas. Actualmente é sítio de eleição dos turistas que pagam pela localização de excelência e o  requintado pappilon do empregado.

Passo para o outro lado da Praça D. Pedro IV e deparo-me com vestígios muito curiosos. Um espelho público. Está junto ao número 115 e pode ler-se nele a inscrição: 'Componha o nó da sua gravata'.

Continuo a pé e projecto a minha sombra sobre a esplanada da Suíça, que também recebe os turistas que se deleitam com os finais de tarde. Antigamente, esta pastelaria era frequentada por gente ilustre das artes. Resiste ainda o logótipo da autoria de Almada Negreiros, grande artista do século XX.

Outro vestígio do passado que merece atenção é o pedido de perdão que está cravado no monumento em memória das vítimas do terrível massacre de 1506, situado no nas Portas de Santo Antão. A população juntou centenas de judeus para os queimar e torturar, numa histeria colectiva impulsionada pelo Rei D. Manuel I.

Procuro sossego no interior da igreja de São Domingos, ali mesmo ao pé. É a minha igreja preferida desta cidade. Ardeu a 13 de Agosto de 1959 e foi recuperada em 1994. Curiosamente, o Rei assassinado D. Carlos e Dona Amélia casaram aqui, assim como outros ilustres da realeza. As marcas do fogo permanecem intencionalmente nas paredes que projectam a igreja nas alturas. O tecto está pintado num tom laranja que contrasta com a negrura do mármore queimado. As pedras do chão ficaram estaladas devido às altas temperaturas do fogo. Sinto uma paz profunda aqui.

Dou um pulo à Provinciana, n.º 23 da Travessa do Forno, uma transversal à Rua das Portas de Santo Antão. Quando estou de passagem, peço uma sandes de presunto, que é servida com grande generosidade. Respira-se um ambiente familiar e a ementa é variada. Destaco a caldeirada e caras de bacalhau e a chanfana. Mas tem muito mais.

Depois, dou por mim sentado ao balcão do Gambrinus. Bebo uma cerveja com o nome da casa (metade de cerveja loira, metade de cerveja preta). A acompanhar, entram em cena os croquetes acabados de fritar. As fatias de pão torrado com manteiga a pingar de calor e uns frutos secos para ir trincando são presença imperativa. Atenção que este é um dos restaurantes mais célebre e requintados da capital. Mas também permite estes momentos de petisquice.

Continuo o meu passeio. Entro no Palácio Alverca, mais conhecido por Casa do Alentejo. Muito discreto na entrada mas exuberante no interior. Trata-se de um dos locais mais exóticos da cidade. Sugere-nos cenários do livro ‘As Mil e uma Noites’. Já foi liceu, armazém e um dos primeiros casinos da cidade. Hoje é espaço de encontro da comunidade alentejana e palco de eventos avulsos. No restaurante que também serve de bar, provem o licor de poejo. É de sabor refrescante mas intenso e por isso pode não contentar todas as bocas.

Se tiverem interesse em bebidas pouco habituais, passem pelo Pirata, junto à antiga Loja do Cidadão dos Restauradores. Serve o fresquinho Pirata, que é uma mistura de vinho bem frutado com soda, desde 1921. Se levar ginjinha chama-se Perna de Pau.

Quero terminar o dia numa esplanada que me proporcione uma vista bonita de Lisboa. Caminho em direcção à Calçada do Combro, passando pelo Chiado. Páro na Casa Havaneza, fundada em 1865, para levar um charuto à medida do meu desejo. Já nos tempos de Eça de Queiroz a Havaneza os vendia, assim como cigarros ingleses, turcos e russos. A primeira vez que o escritor aqui entrou foi com Manuel de Arriaga, que viria a ser o primeiro Presidente da República. Nos seus tempos áureos tinha seis portas para a rua principal. Hoje tem apenas uma.

Estou na Calçada do Combro, num parque de estacionamento. Deixei aqui a minha Macal.

Subo ao sétimo andar, onde se encontra o Park, um dos muitos terraços de Lisboa onde podemos tomar um copo e apreciar a cidade numa vista de 180º. Acendo o charuto para escrever tranquilamente um postal endereçado a todos os leitores:

Encontro-me a viajar pelo país há largas semanas. Tenho aprendido a estar sozinho. Nem sempre é fácil saber como reagir a algumas emoções. Se choramos acompanhados, teremos alguém para nos limpar as lágrimas. Se rimos, partilhamos esse momento de forma contagiante.

É nesta solidão feliz que me encontro. Quero contribuir à minha maneira para a minha felicidade e para a de todos os que gostam de viajar a partir das minha palavras. Que o meu carinho por vocês chegue tão longe quanto os caminhos por onde a minha Macal me tem levado.