O novo Cais do Sodré e o de antigamente

Viajei de avião pela primeira vez quando tinha dez anos, em 1989 ou 1990. Foi um voo atribulado, marcado por um atraso de sete horas na partida e por um poço de ar tão grande que deitou ao chão alguns tabuleiros do jantar e me deixou, segundo dizem, branco como um fantasma.

Destino do voo: Paris. Na capital francesa, visitei na companhia dos meus pais e do meu irmão os monumentos obrigatórios e tirei fotografias com a minha Polaroid. Vimos os arranha-céus de La Défense, os grandes armazéns Lafayette, e nós, os mais novos, apanhámos uma seca monumental no Louvre – um museu que ainda hoje continuo a achar demasiado grande.

Apesar de termos visto tantas coisas bonitas, um dos passeios que me ficaram gravados com mais força na memória foi um fim de tarde no Pigalle. Havia no ar um ambiente entre o artístico e o decadente, entre o boémio e o pitoresco, que exerceu sobre mim um certo fascínio. O meu pai chamou-nos a atenção para o Moulin Rouge e explicou-nos que tinha sido um lugar de eleição para muitos pintores célebres.

Em Lisboa também temos o nosso Pigalle: o Cais do Sodré. Como o bairro francês, é rico em bares, prostitutas e vida boémia. Mas existe uma diferença importante. O Cais do Sodré tem uma forte ligação ao mar. Basta olhar para os seus bares com nomes de cidades portuárias: Oslo, Copenhaga, Liverpool, Amesterdão. Ou para uma das suas principais ruas, a dos Remolares. Hoje já não há fabricantes de remos – os tais remolares – mas continua a haver lojas de aprestos marítimos, com equipamentos para barcos que são um verdadeiro regalo para os olhos.

Durante muitos anos fui ali cliente de uma cervejaria que infelizmente já fechou, o Porto Novo, e frequentei o Bar Americano, onde algumas mesas têm um pormenor curioso: um pequeno apetrecho de madeira encastrado para prender o copo, algo que imagino seja muito útil num barco, para o copo não deslizar sobre a mesa com o balanço. Nas noites mais longas, eu e os meus amigos íamos ao Alberto, um restaurante que servia costoleta de novilho, feijoada e frango no churrasco a partir das sete da manhã.

Acompanhei por isso a ascensão do Cais de Sodré de zona degradada, suja e de má fama a lugar da moda da noite lisboeta.

Em geral, vejo com bons olhos a regeneração do bairro. Há casas modernas, casas tradicionais e outras ainda, como o Sol e Pesca, que fazem uma bela ponte entre a tradição e a modernidade. A tendência tem alastrado, para a Rua do Arsenal, por exemplo, onde as velhas lojas de bacalhau, caracterizadas por um cheiro intenso que se sente até lá fora, convivem hoje com outras mais sofisticadas.

Devo confessar, no entanto, que me encanita um pouco a histeria em torno de fenómenos como a Pensão  Amor. Talvez seja uma mania de 'velho do Restelo' que desconfia das carneiradas e prefere locais que não querem saber de modas. Ainda assim, desejo-lhes longa vida e muita sorte. Até porque quanto maior for o seu sucesso, maiores serão as probabilidades de sobrevivência dos negócios tradicionais que fazem parte da história da zona. 

jose.c.saraiva@sol.pt