Opiniao

Esquerda, procura-se

A união das esquerdas é um velho sonho - ou um antigo pesadelo - dessa mesma ala política. Já no passado recente, para muitos, é a ausência dessa aliança (que existiu em vários países europeus) que justifica as sete pragas do Egipto que se abateram sobre Portugal. Mas essas coligações à esquerda só teriam mitigado a colonização neoliberal a que os partidos socialistas do velho continente se sujeitaram. Mitigado mas não impedido, pois, nesses tais países, deu-se o mesmo galope da onda fria. E não a sua travagem.

De qualquer maneira, o momento político presente já não é só isso. Ainda se mantém a questão de que de nada adianta a esquerda querer influenciar o PS se o próprio PS não o pretender. Há esquerda que quer. E o PS? O que pensa? Só que agora existe outra interrogação, a saber: onde está a esquerda? Sim, porque para unir os pontos é preciso, primeiro, encontrá-los, ou não?

Veja-se, então, a título de exemplo, o Bloco de Esquerda. Será que falha porque não se coligou com o Largo do Rato (como alguns pretendem, alegando que «as pessoas se cansaram de quem não mete as mãos na massa e só faz oposição») ou porque não construiu um enraizamento na sociedade? 

Esta segunda hipótese é mais consistente porque confirmada pela realidade, a saber, os persistentemente tímidos resultados autárquicos do BE (mesmo quando tinha 16 deputados na AR). Já a primeira hipótese é sustentada por uma mera suposição, que carece de testagem. 

Mas como 'enraizar' se a esquerda pouco desponta na sociedade portuguesa para além de umas manifestações e uma ou outra emergência associativa? Parece que, a montante do discurso da 'união da esquerda', é fundamental descobrir onde é que ela está e dar-lhe expressão. Sob pena de, e outra vez de cima para baixo e de fora para dentro, andar-se a unir aquilo que está desaparecido em parte incerta. 

Isto significa que não há esquerda? Não. Todas as sondagens indicam que os portugueses são mais desse lado, perfilhando preferencialmente os seus valores. A questão é que a esquerda 'institucional' abdicou de escutar a esquerda 'espontânea'.

A melhor prova dessa surdez é que a esquerda parlamentar toma como perigoso o discurso da zanga e indignação contra a classe política ('são todos iguais') e contra o 'sistema'. A esquerda partidária apoda essa esquerda não militante de populista, entregando a validação das suas queixas à extrema-direita (o caso francês é paradigmático) ou a Marinho Pinto. 

Os partidos servem para representar os eleitores e não para lhes dizerem, paternalisticamente, o que eles devem querer. Sob pena de disparar a abstenção. Mais. É ou não verdade que demasiadas vezes o Estado tem servido os privados e não o povo? É ou não verdade que se encontram demasiadas transferências de deputados e governantes para a banca e empresas, durante ou após os seus mandatos? Etc. Se a esquerda que concorre a eleições toma como demagogia o que a massa clama nas poucas vezes que sai de casa, esta sairá ainda menos. A união de esquerda que é necessária, urgente, para ontem e já tarda, é a união da esquerda da rua com a esquerda do hemiciclo. O resto é como tentar achar os ovos da páscoa que o próprio escondeu.