Cultura

A Assembleia vai à guerra

Vários manequins, ao longo do átrio principal do Palácio de São Bento, vigiam objectos e documentos relativos à I Guerra Mundial. Estão vestidos com os fardamentos que foram usados pela artilharia, pelos aviadores, pelos ciclistas e pelos soldados nas trincheiras. Apenas as armas não são reais - por razões de segurança, optou-se por réplicas.

Fotografia de soldados portugueses e reconstituição das trincheiras José Sérgio/SOL
Aparelho da época para medir a tensão José Sérgio/SOL
Os manequins foram fardados com vestimentas utilizadas pelos soldados José Sérgio/SOL
Alguns dos 300 postais em exposição José Sérgio/SOL
Maria Fernanda Rollo, comissária científica da exposição José Sérgio/SOL
Lenço com o corpo humano desenhado e numerado para ajudar os soldados a fazerem curativos José Sérgio/SOL
Um dos quatro painéis que explicam a participação portuguesa na guerra José Sérgio/SOL

Aberta ao público até 29 de Novembro, a exposição 'Portugal e a Grande Guerra', na Assembleia da República (AR), permite aos visitantes conhecer o universo da I Guerra Mundial. Através de adereços e documentos - cedidos por instituições como o Parlamento, o Ministério dos Negócios Estrangeiros, o Instituto de História Contemporânea, a Liga dos Combatentes ou a Cruz Vermelha - mas não só. Grande parte do espólio foi cedida pelos descendentes daqueles que participaram no conflito que começou há precisamente cem anos.

Logo à entrada, encontram-se cerca de 300 reproduções dos postais enviados de e para os soldados na frente de batalha, disponibilizados por familiares dos militares. “São testemunhos com uma carga afectiva imensa, da relação entre as pessoas que partiram e as que ficaram”, explica Maria Fernanda Rollo, comissária científica do projecto.

Os postais constituíam uma ponte de comunicação em que se partilhava aquilo que se passava tanto no dia-a-dia do soldado como o que sucedia em ambiente familiar. Uma vez que estavam sujeitos a censura, houve quem optasse por escrever em código para a família. Os temas vãos do mais sério ao mais trivial - um soldado em França enviou para a sua namorada as novidades da moda, para a pôr a par das últimas tendências.

Muitos destes postais foram reunidos pelo Liceu de Leiria e pelo Liceu Camões, em Lisboa. Este último - que garantiu que os órfãos da guerra não tivessem que pagar qualquer despesa de ensino no pós-guerra - mobilizou professores e alunos  para participarem activamente na recolha de artefactos e na organização do evento. “É bom que os alunos percebam a importância de perpetuar a nossa história”, afirma a comissária.

Junto aos postais, encontra-se a reprodução de uma trincheira. Um pequeno corredor, forrado de sacos com terra, em que o visitante ouve tiros e bombardeamentos - a 'banda sonora' diária dos soldados quando havia combate. Nessa pequena trincheira, há ainda fotografias dos soldados portugueses nas trincheiras e da 'terra de ninguém'.

Outro dos grandes desafios levantados pelo conflito foi ao nível dos cuidados médicos. As mutilações e os gaseamentos eram uma realidade quotidiana. Graças à Cruz Vermelha, estão expostos instrumentos e produtos usados na época, como malas com compressas, um aparelho para medir a tensão arterial ou cartões de identificação usados pelas enfermeiras na frente de batalha. Há também um lenço em que as várias partes do corpo humano aparecem identificadas com números - esses números correspondiam aos primeiros curativos que os soldados deveriam fazer a si próprios. “Recebemos também de um particular uma mala com uma seringa que ainda tinha morfina lá dentro”, revela Maria Fernanda Rollo.

Dias da Memória

Este fim-de-semana, o Parlamento abre as portas a todos os cidadãos no âmbito do projecto 'Dias da Memória'. A iniciativa - uma parceria entre a AR, a Biblioteca Nacional, o Instituto de História Contemporânea e o Europeana 1914-18 (biblioteca digital da União Europeia) - tem por objectivo não só “recolher as histórias e memórias das pessoas” que participaram na guerra ou viram os seus familiares partir, como também “dar conta de materiais” que podem ser uma máscara, uma fotografia ou uma pedra de uma trincheira. “A ideia é ouvirmos essas histórias, fotografarmos os objectos, reproduzi-los, guardá-los, preservá-los na memória e ver como é que os netos e os bisnetos, passados 100 anos, têm essa memória”, refere a comissária.

Até ao momento já foram recolhidos cerca de cem testemunhos e inúmeros itens, desde postais, cartas, capacetes, máscaras e materiais médicos, entre tantos outros. Muitos estão já disponíveis no portal Portugal1914, dedicado à divulgação de conteúdos informativos sobre a participação de Portugal na I Guerra Mundial.

“Temos o caso de uma senhora cujo pai era alemão e foi para os Açores antes da guerra e depois regressou nos anos 20, para montar o cabo submarino alemão. Casou lá com uma açoriana, teve três filhos homens e uma rapariga. Essa filha, que está viva, conta-nos a memória que tem do pai. Tem-nos ajudado a reconstruir aquela vida cosmopolita, sem estar em cenário de guerra, entre ingleses, franceses, italianos e alemães nos Açores”.

Durante estes três dias (17-19 de Outubro), uma equipa de 40 especialistas e vários voluntários, 65 dos quais alunos do Liceu Camões, estarão no Palácio de São Bento para acolher os visitantes, registar as suas histórias e digitalizar ou fotografar os objectos que trouxerem. Posteriormente, e mediante autorização, estes serão depois disponibilizados no Portugal1914 e no Europeana 1914-18, que já organizou esta iniciativa em mais de 150 cidades em cerca de 20 países da UE. “Trata-se de ajudarmos a reconstruir essa história, de aprofundarmos o seu conhecimento e de suscitarmos nas pessoas a indispensabilidade de termos essa memória”, nota Maria Fernanda Rollo. “Ela é importante para olharmos para o nosso país, para a nossa identidade nacional e para o nosso futuro”. 

rita.porto@sol.pt