Politica

A cor de Costa é um trunfo ou um handicap?

Jignacha Kanji, cabelos negros, olhos e sorriso grandes, gere uma loja, no Martim Moniz. Nasceu em Portugal e tem origens indianas. Tal como António Costa, candidato a primeiro-ministro pelo PS. Mas a coincidência não importa à jovem de 29 anos. “Não faz diferença se tem origens indianas. Não é por isso que vou votar nele”, diz. Afinal, a cor e as origens de um candidato contam aos olhos dos eleitores?

Jorge Vala, psicólogo social, afirma que “ainda há muito racismo implícito na sociedade e nas instituições” e que esta “é uma questão silenciada”. “Em Portugal nunca discutimos a questão do racismo, assumimos que nunca fomos racistas na nossa História. Isso impede o pensamento crítico contra o racismo”, explica. Por isso, diz que se Costa for entendido como negro, será um obstáculo, mas que se for entendido como indiano, não.

A explicação para essa diferença prende-se com a maior penetração da comunidade indiana (e principalmente goesa) nas elites portuguesas, desde a altura das colónias. Para o politólogo António Costa Pinto, o impacto de Costa ter origens goesas por parte da família paterna “aproxima-se da neutralidade” junto do eleitorado. Além disso, lembra as ligações da família no combate ao Salazarismo - o pai, o escritor Orlando Costa, era do PCP -, um passado “que pode ser activado se for preciso”. Leia-se: caso haja uma campanha suja contra Costa.

À boca pequena, entre adversários ou colegas de partido, surgem alguns nomes pejorativos. “Há uma campanha negra que nota de forma racista as origens de Costa. Existiu na campanha para as autárquicas e existe agora”, garante o politólogo Adelino Maltês. Contudo, acredita que a questão é diluída com o “bom senso” dos adversários. Costa Pinto diz que a questão da cor “não será uma arma política”, uma vez que a direita portuguesa é a favor da “luso-tropicalidade” e a extrema-direita defende o “Império”.

O caso Obama

Barack Obama tentou afastar as questões raciais da campanha, mas o entusiasmo com o primeiro Presidente negro na História dos EUA contagiou o mundo e acabou por ser um trunfo. No discurso da tomada de posse, Obama não passou ao lado da questão: “Levou muito tempo, mas esta noite, por causa do que fizemos hoje, nesta eleição e neste momento decisivo, a mudança chegou à América”.

José Falcão, presidente da SOS Racismo, pega no exemplo de Obama para dizer que a cor não interessa, “o que interessa são as políticas”. “Não é por ser preto que Obama não continuou as guerras imperialistas dos EUA”, diz. Em Portugal, sublinha que “o Estado faz todo o possível para impedir que minorias étnicas subam ao poder”. As expectativas numa mudança na inclusão das minorias, se Costa chegar a primeiro-ministro, são poucas. “Há questões que têm que ser respondidas, como o direito de voto ao imigrante e Costa até agora não deu sinais”.

O SOL tentou falar com António Costa para este artigo, mas não foi possível.

O deputado luso-africano

Hélder Amaral, deputado do CDS, é o único deputado luso-africano no parlamento. E afirma que a cor “é um tema tabu”. “Já se fizeram trabalhos com as mulheres deputadas, os mais jovens, do deputado luso-africano ninguém falou. O facto de ninguém falar é porque há um problema”, garante. Apesar disso, Hélder Amaral diz que não quer fazer apelo à questão racial: “Quero ser avaliado pela minha capacidade e não pela minha cor”. Sobre António Costa, nota a diferença entre a comunidade africana e indiana, mas refere: “A vida diz-me que a cor não será uma vantagem, nunca foi”. Por isso mesmo diz: “é legítimo pensar que há determinados lugares a que não posso aspirar porque o país ainda não está preparado”. Conta que quando se candidatou pela primeira vez à Câmara de Viseu recebeu algumas cartas, mas que a cidade, mais conservadora, se habituou. “Vencer esse handicap não é impossível”. 

No Salão Nobre do Parlamento há quadros dos Descobrimentos onde é invocada a escravatura. Alguns deputados já se sentiram desconfortáveis e comentaram com Hélder Amaral. “Em Portugal não se assume a História, quer-se apagar. Esta é a minha pátria, não sinto qualquer desconforto. É muito português não querer espantar os fantasmas, mas há que falar para que a História não se repita”. Para o deputado é importante que Portugal fale cada vez mais no assunto, porque só o enfrentando se tornará natural. “Costa poderá dar um bom contributo”, afirma.

O Gandhi da Mouraria

Após a vitória de Costa nas primárias do PS, vários jornais indianos escreveram sobre o 'Gandhi de Lisboa'. Fizeram elogios rasgados ao autarca com um “estilo de vida missionário” e que transformou uma zona 'esquecida' da capital.

Costa mudou o gabinete para o Largo do Intendente em 2011 (este ano voltou aos Paços do Concelho) e conquistou os moradores do bairro. Foi Nuno Franco, da Associação Renovar a Mouraria, quem lhe deu a alcunha de 'Gandhi da Mouraria'. “O Gandhi defendeu os direitos humanos do povo, Costa veio defender os direitos básicos desta comunidade, por exemplo, ter a rua arranjada”, diz.

Pelas ruas do Martim Moniz e Intendente, moradores e comerciantes concordam que o ambiente do bairro melhorou. Mas queixam-se que ainda há falta de policiamento e que o problema do tráfico de droga e prostituição apenas mudou de rua. Armindo Fernandes, do restaurante Cova Funda, onde Costa costumava almoçar, mostra uma foto de Costa e Sócrates juntos. “Tenho medo que com a saída da Câmara isto piore”, confessa. Paredes meias está a loja de produtos indianos de Tazmine Dosani. “Tem boa figura. Se vou votar nele, logo se vê. Com a situação do país, nem um milagreiro”, diz.

As raízes indianas de Costa não importam a quem vive no bairro onde a multiculturalidade é natural. “Todo o homem bom faz um bom trabalho. Se é asiático, africano ou português não importa”, resume Sajeed Ahmed, que veio há três anos do Bangladesh.

sonia.cerdeira@sol.pt