Sociedade

O que leva uma mulher a recorrer a cirurgias plásticas?

Com o caso de Renée Zellweger, a questão voltou a vir ao de cima e a suscitar grande interesse na opinião pública.

O culto do corpo, da beleza e da eterna juventude está de tal forma incutido nas sociedades ocidentais que é difícil desassociarmo-nos dele. Basta olhar para as capas de revistas e para os anúncios televisivos, como explica a psicóloga clínica Maria do Carmo Cruz.

“Na grande maioria dos anúncios de televisão as actrizes têm entre os 20 e os 30 anos. Só quando o produto é dirigido aos mais velhos (como os anúncios de fraldas, dos bancos, entre outros), surgem os actores mais idosos, já com mais de 65 anos”, nota a psicóloga.

Um hábito ocidental, já que nas culturas orientais a beleza não é tão valorizada. Pelo contrário, o amadurecimento da mulher é visto como uma bênção para a comunidade. “Nas Filipinas, por exemplo, a mulher vai sendo cada vez mais integrada nas actividades do seu meio à medida que vai envelhecendo”, o que leva a que estas (na sua grande maioria) não vivam  deprimidas ao atingir idades avançadas e com um corpo que já não é o que era, explica Maria do Carmo Cruz.

No Ocidente acontece exactamente o oposto. Tal como no ‘Mito de Cronos’ – o mais novo dos Titãs, pai de Zeus, que engoliu cinco dos seus seis filhos com medo de ser destronado – as mulheres mais velhas esforçam-se por se manterem no topo ‘destronando’ as mais novas, sem que haja uma integração saudável das várias gerações.

E num mundo em que as mulheres são muitas vezes valorizadas pelo aspecto físico, a necessidade de conquistar a eterna juventude leva-as a recorrer às cirurgias plásticas. O que é ainda mais premente em Hollywood, onde muitas actrizes são glorificadas principalmente pelo corpo.

Renée Zellweger já tinha uma carreira consolidada. Deu nas vistas com ‘O Diário de Bridget Jones’, deslumbrou tudo e todos com ‘Chicago’ e venceu um Óscar pelo seu papel em ‘Cold Mountain’. Vários críticos esmagavam-na a cada filme que era lançado, mas era acarinhada pelo público, pelos seus colegas e pela Academia. Se provou o que tinha a provar enquanto actriz, esta necessidade de rejuvenescer estará directamente relacionada com a realização profissional?

Sem conhecer o passado da actriz, a psicóloga explica o que, a seu ver, leva a maioria das mulheres a recorrer às cirurgias plásticas: “Quem sente a necessidade de não só fazer pequenas alterações na cara, mas de uma tal transformação que a deixa irreconhecível, aos olhos de muitos mostra uma grande falta de auto-estima e de valorização de si mesma. Reflecte uma total dependência da beleza, da juventude e das cirurgias em si – que se tornam um vício, tal como as drogas e o álcool”, conclui.

Para o cirurgião plástico Manuel Oliveira Martinho, médico da Corporación Dermoestética, o que leva as mulheres a recorrerem a estes processos não tem necessariamente a ver com uma questão de vaidade. “Existem mulheres que condicionam as suas actividades por não se sentirem bem com o seu corpo – falamos de aspectos como uma barriga flácida devido à gravidez, um nariz demasiado grande ou orelhas de abano, por exemplo. Há quem sofra com estes problemas”, explica.

As mulheres que não gostam de si mesmas acham também que os outros não gostam do seu aspecto. “Isto influencia muito na personalidade de alguém. Mas os resultados da cirurgia também têm um grande impacto na forma de estar de uma pessoa”, disse ao SOL.

No entanto, há que perceber se não existe de facto um problema psicológico mais grave por detrás de um rosto. “Se a pessoa tem desejos que não são realistas, o médico deve declinar o pedido ou pedir ajuda a um colega [na área da psicologia] (…) Se o cirurgião for honesto e vir que a paciente não vai obter os resultados pretendidos, tem o dever de dizer que não opera”, afirma o doutor Manuel Oliveira Martinho.

O médico confessa que não conhece bem o caso de Renée Zellweger, mas referindo-se ao caso de Hollywood em geral, fala na pressão que os artistas sentem para manterem uma certa imagem: “Ou porque há a necessidade de preservar a beleza ou porque existe o medo de se ser ultrapassado pelos mais jovens”.

“Se a pessoa vive da imagem, tem de cuidar da mesma. O pior é quando as cirurgias se tornam irrealistas e os resultados não são naturais”, acrescenta. E tal como já foi referido, cabe ao médico ser sincero com o paciente e tentar perceber se se trata apenas de uma tentativa de aperfeiçoamento ou de um problema mais sério.

joana.alves@sol.pt