Cultura

ZDB: o epicentro de uma certa Lisboa cultural

Natxo Checa é peremptório: “Se não fizesse sentido teria desaparecido”. É a primeira frase que atira quando começa a falar sobre o 20.º aniversário da 'sua' Galeria Zé dos Bois (ZDB), associação que fundou com uma dezena de pessoas, no longínquo Outubro de 1994. Queria dar espaço ao trabalho de um grupo de jovens recém-formados em artes e que não se revia nas estruturas dominantes na época. A abrupta frontalidade é traço de personalidade antigo, admite, mas também acredita que foi, em parte, devido a essa postura que a Zé dos Bois - um aportuguesamento do nome do artista alemão Joseph Beuys - conseguiu sobreviver ao longo destas duas décadas. “Mas quem é que não passa a vida a tentar sobreviver em Portugal quando se trabalha na área cultural?”, questiona.

Marta Furtado, há 13 anos na ZDB e a sua actual directora, não gosta do discurso do 'coitadinho', mas também admite que quando entrou, em 2001, rapidamente percebeu que era preciso encontrar um caminho novo para a associação evitar a morte iminente. Até àquela data as acções mais mediáticas eram as exposições colectivas e o Festival Atlântico (dedicado às artes performativas), que ocorriam espalhados pela cidade, ocupando muitas vezes espaços degradados e sem as devidas condições de apresentação. Trabalhar à 'beira do precipício' tornou-se recorrente, mas “a ideia de fazer em grande quantidade e criar uma rede que não existia” motivava os sócios. E assim continuaram até ao início dos anos 2000, com a entrada de Marta a originar a redefinição de apostas.

A primeira delas passou pela especialização, solução que perdura até hoje. “Foi uma necessidade para sobrevivermos. Pensámos: 'Ficamos peritos cada um na sua área e, assim, criamos uma estrutura mais forte'“, frisa a programadora, que ficou responsável pelas artes performativas, enquanto Natxo passou a dedicar-se às visuais (com a produção de peças de arte de, entre outros, artistas como a dupla João Maria Gusmão + Pedro Paiva). É também nesta altura que surge, em permanência, um curador de música e a decisão de se fixarem definitivamente no antigo Palácio Baronesa de Almeida, na Rua da Barroca, no Bairro Alto. “Até virmos para aqui, a ZDB era uma coisa mais virtual, que pairava. Aqui ganhámos uma entidade física e, já que temos o espaço, temos de tratar dele. Uma programação regular, com actividades constantes, possibilita isso mesmo”, declara Marta. Arrumada a casa - e alargada posteriormente com O Negócio, espaço na Rua do Século dedicado ao teatro e à dança, por onde já passaram companhias como A Mala Voadora, Primeiros Sintomas e Teatro do Vestido - a ZDB tornou-se rapidamente “o epicentro de uma certa Lisboa cultural”. “Havia uma certa energia e liberdade que não se encontrava noutros espaços”, diz Sérgio Hydalgo, programador de música há sete anos, situando a segunda década de vida da associação como a da afirmação da música no espaço e o alargamento a um novo público.

Impulsionada inicialmente por Nélson Gomes, a programação de música da ZDB beneficiou da conjuntura internacional do início do novo século, numa altura em que os downloads ilegais começavam a tornar-se cada vez mais frequentes, obrigando os artistas a esticar as digressões até cidades onde nunca tinham tocado antes. Lisboa torna-se assim um destino óbvio para bandas em início de carreira como os Animal Collective, que Sérgio considera, “provavelmente, a banda paradigmática na altura deste universo que crescia”.

Ligado à música por interesse pessoal, mas também profissional, uma vez que trabalhava como jornalista na extinta revista online Music Net, Vítor Junqueira recorda bem esse período. “Hoje em dia é fácil esquecermo-nos, mas há 15 anos o panorama era completamente diferente. Havia um ou outro concerto, mas nada com a periodicidade que a ZDB criou”. A par disso, contextualiza Sérgio, “dá-se o boom dos blogues e do MP3 e começa-se a trocar muita música e uma música a que não tínhamos acesso”.

Presença assídua desde 2001, Vítor Junqueira recorda-se de o volume de concertos na ZDB tornar-se bastante intenso. Entre 2003 e 2006, diz, viveram-se “anos frenéticos” no espaço. Nélson Gomes confirma: nesses três anos, a grande regularidade de artistas internacionais provocou um “acréscimo de público significativo” e criou-se “uma comunidade grande em redor do que se lá fazia na altura”. A par disso, destaca o facto de a ZDB ter “eliminado na cidade a lacuna que existia de espectáculos de pequena escala” e “potenciar uma cena musical local”.

Presente “quase todas as semanas”, Vítor Junqueira contabiliza em “quase 300” os concertos que viu no 'aquário', como é conhecida entre os habitués a sala da ZDB. “Muitas vezes não sabia ao que ia e, depois, acabava surpreendido porque descobria coisas novas e interessantes”, conta o agora economista, destacando também a capacidade de a ZDB agregar pessoas com pontos de vista idênticos, que ali trocavam informação e davam a conhecer discos uns aos outros. Desse diálogo constante, surgiam ideias para projectos novos em torno da música. Exemplo disso mesmo é a Filho Único, associação cultural que Nélson criou depois de três anos a trabalhar na ZDB, motivado pela vontade de “expandir horizontes”.

Sem conflito de gerações

Hoje com 41 anos, a regularidade com que Nélson Gomes frequenta a ZDB está longe de ser a mesma desses três anos, ao contrário de Joana Morgado, 33 anos, uma cara familiar do espaço desde há nove, quando se mudou do Porto para viver em Lisboa.

Apesar da diferença de idades e de testemunharem períodos distintos da associação, há vários pontos de contacto entre o discurso de ambos. “O que me liga à ZDB não se limita à música. É um ponto de encontro para quem partilha gostos musicais e ideias. Posso ir sozinha que sei que vou sempre encontrar alguém conhecido”, comenta a booker e assessora de imprensa da Arruada, agência que representa, entre outros, os Buraka Som Sistema.

A primeira vez que Joana ouviu falar da sala lisboeta foi no Porto, graças às parcerias que a associação organizava com espaços da Invicta. Com a chancela da ZDB viu, na sua cidade natal, Panda Bear e Animal Collective e, quando se mudou para a capital, em Novembro de 2005, estreou-se logo nesse mês no espaço do Bairro Alto com um concerto de Owen Pallett (dos Arcade Fire). Hoje, Joana diz que não se imagina “a viver na cidade sem a ZDB”.

Para isso também tem contribuído a programação “mais abrangente” de Sérgio Hydalgo. “Quando comecei a ir, as propostas eram mais fechadas, de nicho. Depois senti que a sala abriu. Hoje em dia aquela ideia de que a ZDB é só música 'fora' não é verdadeira. Claro que há música improvisada ou experimental, mas a esses concertos não vou”.

O programador de música actual confirma que quando chegou, em 2007, existia uma forte vocação para essa música improvisada e experimental que Joana refere, “considerada um pouco 'difícil'“. “Quando entrei, o que decidi fazer foi respeitar o lugar aberto a uma música que noutros espaços não tem tanta atenção, mas abrir o leque a algo que contempla mais a canção”, explica Sérgio. “Acho que expandi, que não eliminei nada”.

Aos olhos do programador essa expansão traduz-se na presença, ao longo destes sete anos, de nomes emergentes - como os Dirty Projectors, Thee On Sees ou Fuck Buttons, que se estrearam há uns anos em Portugal na ZDB e agora tocam para milhares de pessoas -, mas também de artistas consagrados como Thurston Moore, Lee Ranaldo e Kim Gordon, dos Sonic Youth. E como é que uma sala com capacidade para cerca de 150 pessoas, de orçamento reduzido, consegue programar artistas deste calibre? “Todos os músicos dessa banda gostam de 'flirtar' com o estrelato, mas sentem quase uma responsabilidade para com a cena de onde despontaram, que é o underground”.

Ao SOL, Thurston Moore define a ZDB como “um lugar de amor e descoberta”. “É um dos poucos lugares que conheço que celebra o mistério, o curioso, as margens. E, como tal, é de extrema importância cultural. Mudava-me para lá para ser um poeta improvisador residente se o convite chegasse hoje. Ou, pelo menos, iria trabalhar na livraria por uns tempos”.

Esta devoção tem eco em quase todos os músicos que já passaram pela ZDB. Will Oldham, mais conhecido pelo nome artístico de Bonnie 'Prince' Billy (e que actua a convite da ZDB no Teatro São Luiz a 16 de Novembro), menciona que, durante anos, a associação “levou-o a acreditar que Lisboa é um local vibrante, criativo, com uma energia e profundidade sem igual a qualquer outra comunidade na Europa”. Já o brasileiro Rodrigo Amarante, que há uma semana engrossou os festejos do 20.º aniversário com um concerto no Palácio Sinel de Cordes, publicou na sua página de Facebook uma longa lista de agradecimentos a toda a equipa da ZDB. “Lisboa, se melhorar estraga!”, escreveu.

Em relação à importância da ZDB 20 anos depois da sua criação, as respostas são díspares. Marta prefere que sejam olhares exteriores a destacar a relevância, mas Natxo é, mais uma vez, directo: “O que mantém viva a ZDB é a sua independência e força de vontade. A ZDB funciona por um princípio de vontade e os artistas reconhecem isso. Tudo se tornou uma transacção, uma coisa que se negoceia, e os artistas gostam de sentir que o que estão a fazer é apreciado, impulsionado e potencializado sem estar a caixa registadora por trás”. Já Sérgio é mais romântico: “Costumo dizer que Lisboa é uma cidade melhor por a ZDB existir”.

A par disso, Sérgio Hydalgo defende o trabalho da ZDB “quase como um statement político”. “Somos um centro cultural independente que produz tudo o que faz, se dá ao luxo de recusar propostas em função de uma qualidade programática e que preza muito a relação que o seu público estabelece com o(s) artista(s). Seria muito mais fácil fazer um ou dois festivais, espetar uma grande marca como patrocinador e enveredar pela espectacularidade. Mas o que queremos é que, daqui a uns anos, outros artistas surjam porque se sentiram inspirados aqui e perceber que as nossas propostas originaram ainda mais criação”. 

alexandra.ho@sol.pt